Diário de Notícias  - 16 Set 08

 

O saber de sempre
Adriano Moreira

 

A grave situação causada pela intervenção da Rússia na Geórgia teve um primeiro efeito desanimador que foi o de fazer recordar todo o dramatismo da guerra fria, os longos anos de inquietação sobre a quebra eventual da paz, as previsões de então sobre as consequências de um eventual recurso às armas de destruição maciça.

 

A retórica de uma resposta musculada dos ocidentais perpassou pelas declarações mais ou menos oficiais dos governos europeus e americano, que rapidamente regressaram à moderação que uma linguagem cuidada chama prudência, e que, com mais transparência, tem que ver com a relação de poderes, não necessariamente a que avalia as capacidades militares, apenas a que avalia as dependências externas em que os europeus se encontram. As circunstâncias teriam sido mais angustiantes se a Geórgia já pertencesse à NATO, um desígnio logo lembrado e reafirmado quando a notícia da agressão foi recebida, porque não é crível que funcionasse a obrigação de intervir, e o descrédito não poderia ser evitado. Vai ser um tema de grande importância e perplexidade, a avaliação e sequência dos anúncios do alargamento europeu tão prontamente reafirmado, e até agora tão desejado pelos libertados satélites que acreditaram estar desse modo a salvo dos projectos de hegemonia da antiga potência directora do Pacto de Varsóvia. Tendo sofrido a demonstração de intenções, talvez sejam agora conduzidos, pela experiência em curso, a meditar sobre outros estatutos internacionais menos provocadores do descontrolo russo. Tudo está a passar-se num ambiente carregado de incertezas, às quais as respostas ou advertências vindas das instâncias responsáveis tendem para apoiar-se nas mais tradicionais exortações que amparam a incapacidade de regular os processos. Recentemente, o prestigiado secretário-geral adjunto da ONU para as Operações de Manutenção da Paz, Jean- -Marie Guéhenno, despedindo-se do cargo que exerceu durante oito tormentosos anos, anunciou que tinha retirado dois ensinamentos principais da experiência vivida: que a força conta, "porque é essencial conseguir respeito no terreno, e só a força pode ajudar a consegui-lo"; a paz, todavia, apenas seria obtida por um "processo estritamente político". No caso pendente, a meditação sobre estes requisitos, da parte dos ocidentais, não é de esperar que leve a grandes esperanças em face da demonstrada capacidade de risco dos invasores da Geórgia.

 

Embora seja sempre necessário não afastar as afirmações do seu contexto, neste caso o globalismo é o contexto, e as erradas interpretações são menos de temer. É por isso que não parece muito audacioso aproximar da referida afirmação feita em relação às operações de manutenção da paz o apelo que o secretário-geral Ban Ki- -moon fez no sentido de não sacrificar a justiça à paz, a propósito da intervenção do Tribunal Penal Internacional. Disse que, "acima de tudo, a busca de um equilíbrio entre a justiça e a paz nunca deve ser influenciada pelas ameaças e a atitude dos que tentam escapar à justiça". No caso presente, aplicar este conceito, que tem em vista a punição das agressões, a reposição e reparo da situação anterior, não é fácil imaginar que o resultado fosse satisfatório. A narrativa que vai acompanhando a sucessão de violações, ao mesmo tempo da paz e da justiça, também vai demonstrando que a lógica dos apelos anda por caminhos muito diferentes dos da lógica da intervenção: a insegurança no Chade não diminuiu, e impede mesmo a entrada da ajuda humanitária; no Zimbabwe, os representantes da comunidade internacional avisam o Conselho de Segurança de que a situação é "um desafio para o mundo"; o erro cometido no Kosovo não animou de resultados a intervenção da Missão da ONU; no Corno de África, a seca e a subida de preços dos géneros terá deixado mais de 14 milhões de pessoas, que vivem em seis países, na maior carência alimentar. De tantas e longas dramáticas narrações, de tão dispendiosas intervenções em recursos materiais e humanos, de tanta inútil intervenção militar, de tantas perdas de vidas, de futuros, e de esperanças, a conclusão que parece abrangente de todos os casos é que a paz continua a ser um processo estritamente político, apoiado na concentração dos esforços internacionais. A UNESCO avisou, desde sempre, que a guerra começa no coração dos homens, e a longa história de desastres não conseguiu inspirar melhor sabedoria.