Jornal de Negócios - 03 Set 08

 

Previsões imperfeitas
João Cândido da Silva

 

Um velho chavão diz que a mesma pergunta feita a cinco economistas resultará em igual número de respostas diferentes, ou em seis, se um deles tiver frequentado a Universidade de Harvard. Parece que a tradição já não é o que era.

 

Os dias que correm são um desafio à veracidade da tirada irónica que Edgar Fiedler, antigo secretário do Tesouro norte-americano, e também economista, deixou para a posteridade.

 

As perspectivas sobre o futuro próximo estão a convergir. Inspiram-se no título de um filme célebre pelos efeitos especiais. Permitiam a quem o visionasse ficar com uma pequena noção do que é estar perto do centro de poder destrutivo de um furacão. Há dias, numa análise publicada no Jornal de Negócios, Nouriel Roubini, economista que anteviu a crise actual, relacionava um conjunto de sinais para concluir que o mundo está à beira da "tempestade perfeita" de uma recessão global.

 

Para chegar a esta imagem apocalíptica, Roubini baseava-se no abrandamento ou contracção registados, actualmente, nos países do G7. A prazo, serão transmitidos a mercados emergentes como o Brasil, Rússia, Índia e China, decisivos na sustentação do mais recente ciclo de prosperidade a nível global. Inevitável? Sim, segundo Nouriel Roubini, porque quando os bancos centrais decidirem baixar as taxas de juro será, já, demasiado tarde para evitar o desastre.

 

As previsões negras do professor da Universidade de Nova Iorque são tão falíveis como quaisquer outras, apesar de, a seu favor, Roubini poder contar com o facto de ter antecipado a crise financeira actual. A circunstância proporcionou-lhe o prazer de zurzir nos homens da bola de cristal do Fundo Monetário Internacional que apenas vislumbraram um sol brilhante quando as nuvens já se adensavam. Não foram os únicos.

 

O relatório do Orçamento do Estado português para 2008 pintava um cenário paradisíaco. Preço do petróleo Brent a 75 dólares, taxa de juro Euribor a três meses nos 4,2%, inflação abaixo de 2%, crescimento da Zona Euro nos 2,1%. E, cereja no topo do bolo, previa-se uma progressão da economia portuguesa acima da média dos principais parceiros, embalada nos melhores sonhos para atingir uns vistosos 2,2%. Um ano depois, nem uma única destas previsões dá o direito ao Ministério das Finanças de se orgulhar de ter sabido interpretar, com um mínimo de cautela, os primeiros sinais de ventania.

 

As actualizações que vão surgindo nas projecções das organizações internacionais têm em comum o facto de, mês após mês, apontarem mais para baixo. Ontem, a OCDE reduziu as expectativas para a Zona Euro, forçando o primeiro-ministro a admitir que o crescimento em Portugal pode, até, ser inferior às previsões oficiais mais recentes.

 

Com um pouco de sorte, à atenta máquina de comunicação do Governo poderá restar a ténue possibilidade de Portugal crescer pouco mas, ainda assim, acima do ritmo da "eurolândia". Não será grande consolo para ninguém. Mas, com eleições à vista, a propaganda vai agarrar-se àquilo que tiver à mão. Se a realidade não for perfeita, muda-se a realidade. Se a tempestade for perfeita, muda-se a tempestade.