Público - 29 Out 08

 

Se os economistas não são oráculos, podemos recorrer aos historiadores?
José Manuel Fernandes

 

Esta não é a primeira crise, nem será a última. Não é tão grave como a de 1929, mas podem vir aí males maiores se não soubermos retirar lições da História

 

Os judeus costumam dizer que são um povo que caminha às arrecuas: viram as costas ao futuro porque têm os olhos postos no passado. Outros dirão que caminham às cegas: enfrentam o futuro mas não sabem de onde vêm nem para onde vão. E a virtude estará provavelmente no meio: conhecer o passado pode ajudar-nos, pelo menos, a não cometer os mesmos erros no futuro.

 

Talvez por isso, para além de pedirmos apenas aos economistas que nos expliquem o que se passou e o que devemos fazer, seja importante dar também a palavra aos historiadores. Mas sem esperar que sejam oráculos, pois, como quase tudo em Marx - que tinha várias costelas de historiador entre as de economista e filósofo -, a sua ideia de que a História se repete sempre está longe de ser científica. Mas alguma sempre se repete.

 

Talvez por isso algumas das previsões mais categóricas de que os Estados Unidos caminhavam para uma crise financeira tenham sido feitas por um historiador mal-amado pela esquerda, Niall Ferguson, num documentário do britânico Channel 4 emitido em2004. Título? Colossus. Tema? A ascensão e queda do império americano.

 

Historiador inglês, autor de Empire, um estudo sobre a ascensão e queda do império britânico, Ferguson dedicou-se entretanto a um tema aparentemente diferente, mas muito próximo: o seu mais recente livro chama-se The Ascent of Money, a Financial History of the World. Na sua opinião, ao colocar em perspectiva os momentos que vivemos, e recordando quatro milénios de convívio com o "dinheiro", Ferguson considera que tem havido alguma sobre-reacção nesta crise financeira e que, "apesar de ser a mais importante desde 1970, é altamente improvável que cause uma calamidade macroeconómica como a dos anos 1930", como escreveu recentemente no The Guardian.

 

Este aparente optimismo - e a verdade é que, apesar de todo o histerismo nas bolsas, ninguém prevê uma contracção económica violenta - resulta de acreditar que "a extinção dos bancos de investimento mostra apenas como funciona um sistema financeiro darwiniano". Mas, acrescenta, "tal choque não nos catapultará de volta à Idade da Pedra".

 

Claro que há perspectivas diferentes. O mesmo The Guardian publicava ontem um trabalho sobre a possibilidade de suceder à nossa civilização o mesmo que sucedeu à civilização Maia, isto é, desaparecer. A tese que desenvolve não é especialmente original, pois é uma variação por comparação com a que serviu de ponto de partida a Jared Diamond no seu livro Collapse: How Societies Choose to Fail or Succeed. Diamond partiu do exemplo da civilização desaparecida da Ilha da Páscoa para mostrar como a exploração até aos limites dos recursos naturais tinha acabado por destruir os ecossistemas e tornar insuportável a vida de uma comunidade rica e culta. O Guardian escreve que foi devido à conjugação de três factores - excesso de população, desastre ecológico e lideranças fracas - que os construtores das imponentes pirâmides do Iucatão se perderam como potência e como civilização. Sintomaticamente, ao lado de uma pirâmide Maia, o Guardian mostra-nos a fachada do Banco de Inglaterra...

 

O paralelo pode ser excessivo, ou é mesmo excessivo, mas alerta-nos para a necessidade de colocarmos a crise actual em perspectiva - ou seja, permite realizar por um outro caminho a mesma reflexão de Niall Ferguson. Só que para chegar a conclusões menos optimistas: o ponto agora deixa de ser saber se esta é ou não uma crise financeira devastadora para a economia real, mas o de saber se esta é apenas uma pequena crise se pensarmos no que teremos de enfrentar se não debelarmos alguns problemas planetários de sobrepopulação, crise ambiental e, por que não referi-lo também, falta de lideranças fortes.

 

Ora há um ponto comum entre estas duas abordagens: a ideia de que é impossível viver demasiado tempo acima das suas possibilidades. Ideia que é verdadeira tanto para o sobre-endividamento dos Estados Unidos (ou de Portugal) como para o ritmo a que consumimos recursos naturais vitais. Se a crise não nos chegasse pelo lado da "bolha do crédito imobiliário", chegar-nos-ia - como já estava a chegar - pelo lado da escassez dos recursos e da nossa recusa em mudar de hábitos ou renunciar a certos consumos (o que sucedeu com o preço do petróleo este Verão pode ter sido apenas uma pequena amostra do que nos espera quando regressarmos, se regressarmos, a uma nova era de crescimento).

 

Daí que, como recentemente desabafava um banqueiro, se "todos sabiam que iam chocar com o muro e ninguém foi capaz de travar", isso sucedeu porque nem o mais inspirado dos economistas previu a dimensão da actual crise. Os historiadores podiam ter dado uma ajuda. Pelo menos um deles, Ferguson, fez uma previsão mais acertada...