Público - 22 Out 08

 

Não se riam dos islandeses para eles não se rirem de nós
Rui Ramos

 

A economia mundial, nos últimos dez anos, cresceu como nunca. Nós não. Não pudemos

 

É sempre assim: há crise no mundo, e logo os portugueses se declaram em situação de "oásis". Com os centros comerciais ainda abertos e o Governo entretido com as casas decimais de uma estagnação subitamente lisonjeira, a tribo inteira tem-se juntado à volta dos seus velhos ídolos para gozar a versão ao contrário da fábula da cigarra e da formiga. Onde estão agora as Irlandas aplicadinhas e trabalhadoras que nos diziam para imitarmos? Esses países que andavam no topo de todas as boas tabelas onde nós aparecíamos em baixo - onde estão eles, esses "modelos", essas formigas, que durante tanto tempo nos fizeram sentir cigarras no Inverno? Estamos vingados.

 

Imagino que no Chade ou no Burkina Faso sintam o mesmo. Porque também eles, na crise actual, são "oásis". Mas não são oásis só agora, nos maus tempos. Também já eram oásis antes, nos bons tempos. Como nós. Se a recessão vier, será certamente menor em Portugal do que na Islândia, na Irlanda ou na Espanha, pela simples razão de que a prosperidade também foi. A economia mundial, nos últimos dez anos, cresceu como nunca. Houve países que apanharam o comboio - talvez de mais. Nós não. Por virtude e sabedoria? Não: porque não pudemos. A nossa pobre bolha estourou muito antes da dos outros, em 2001, e só o euro nos poupou um transe argentino. Não temos bancos em colapso. Mas também nunca tivemos bancos capazes de atrair poupanças de outros países.

 

É verdade que um país pequeno não depende apenas de si próprio. É improvável prosperarmos quando todos estão em dificuldades. Mas o grande facto, nesta última década, foi este: empobrecemos relativamente quando tantos outros enriqueciam. Por isso, não se riam dos islandeses: é que eles, com mais razão, podem rir-se de nós.

 

Já na "crise mundial" de 1929-1931, como disse Salazar e confirmam os historiadores, fizemos de oásis - um dos países menos castigados na Europa. Porquê? Porque éramos dos mais pobres e dos mais desligados da circulação de bens e de capitais que fazia crescer a riqueza no mundo. E quem queria viver na casinha portuguesa, com o pão e vinho sobre a mesa? Os portugueses, não. Mal puderam, depois da II Guerra Mundial, emigraram às centenas de milhares.

 

A nossa última golpada foi a do euro. Aproveitámos para nos endividar até aos nossos limites - infelizmente muito mais baixos, como se viu, do que os dos islandeses. Os islandeses e os irlandeses podem estar agora em sarilhos. Mas desenvolveram hábitos, competências e contactos que os habilitaram para explorar os recursos da economia global - e que lhes hão-de servir para o fazer outra vez, quando a ocasião se proporcionar. Um dos nossos problemas é este: criarmos neste país o ambiente e os recursos necessários para detectarmos e tirarmos partido de oportunidades, como os islandeses. Podemos tentar ser mais prudentes ou esperar ter mais sorte, mas não nos podemos imaginar dispensados de esforços - e de riscos.

 

Perguntar-me-ão: não seria possível optarmos por guardar rebanhos, numa arcádia pobre, mas decente? Sim, na condição de aceitarmos o nível de vida e de protecção social correspondentes a uma nação de guardadores de rebanhos. Mas, considerando o nosso endividamento e os "direitos sociais" que por lei nos atribuímos a nós próprios, não me parece que Alberto Caeiro represente exactamente as aspirações dos seus compatriotas.

 

Em 2005, os actuais ministros explicaram-nos que a solução para a nossa "crise" era o "crescimento". O que é que tem crescido em Portugal? Além do desemprego, o Estado. Bem sei que pelo mundo, durante as últimas semanas, muita gente voltou ao altar do Estado. Em Portugal, foi crença que nunca nenhum missionário liberal nos fez perder. Mantemos um dos Estados que, na Europa, mais gastam em relação à riqueza nacional e mais cobram atendendo ao nível de desenvolvimento do país. É talvez um óptimo mecanismo para tentarmos viver à custa uns dos outros, como dizia Frédéric Bastiat. Mas não se deveria ter notado já, se fosse também bom para criar ou ajudar a criar riqueza?

 

A tragédia seria deixarmos o espectáculo da "crise financeira global" distrair-nos da nossa crise local - a crise de um país onde, nos últimos trinta anos, as pretensões reflectidas no "modelo social" aumentaram, mas as taxas médias de crescimento económico diminuíram. O contraste, como alguns já perceberam e todos já começaram a sentir, é insustentável. Há escolha, claro: ou renunciamos aos "direitos", ou temos de deixar de ser este oásis que só consegue acompanhar os outros a descer. Historiador