Público - 20 Out 08

 

O futuro que pague a crise
Sarsfield Cabral

 

Há que distinguir o mercado do dinheiro do mercado de acções

 

Foi travada a onda de pânico nos mercados do dinheiro. Evitou-se o colapso do sistema mundial de crédito, que seria uma tragédia. Aconteceu depois da adopção pela zona euro do plano de recuperação da confiança nos bancos, inspirado no programa de Gordon Brown. Um plano já assumido por toda a União Europeia e até pelos Estados Unidos.

 

É um plano assente na ilimitada liquidez disponibilizada pelos bancos centrais; nas garantias estatais aos depósitos, à sobrevivência de bancos e às dívidas que a banca tenha dificuldade em pagar; e na tomada de posições accionistas em bancos por parte dos Estados. Foi por isso que as taxas de juro do mercado, com a Euribor e Libor, começaram finalmente a descer. Assim, o crédito não vai secar. É o mais importante.

 

Muitos não perceberam a distinção entre o mercado do dinheiro e o mercado de acções. As bolsas evoluíram na semana passada em montanha russa, subindo e descendo. O nervosismo bolsista tem a ver sobretudo com a perspectiva de recessão económica, afectando os lucros das empresas e desvalorizando as acções. As próprias intervenções estatais nos bancos implicam (e bem) prejuízos imediatos para os respectivos accionistas, com reflexos nas cotações bolsistas.

 

São já visíveis estragos no crescimento económico e no emprego. E a procissão ainda vai no adro. A própria economia chinesa irá abrandar. É improvável que Portugal escape à recessão, até porque o nosso principal cliente, a Espanha, está em forte travagem económica.

 

A crise veio ajudar o Governo num ano eleitoral. É algo que vem de fora, de que somos vítimas e não responsáveis. E permite justificar despesismos, com a bênção da Comissão Europeia. Uma política correcta ou eleitoralista?

 

O Governo apresentou o Orçamento mais expansionista da última década, alegadamente para dinamizar a economia em tempo de crise. Só que o Estado português apenas se encontrará em posição de prosseguir políticas anticíclicas quando tiver, de facto, saneado as contas públicas. O Governo avançou aí, mas ainda está longe da meta, em particular na redução estrutural da despesa corrente do Estado. Transmitir a ideia de que a consolidação está feita dá jeito, mas é falso. O economista do FMI que segue Portugal, James Daniel, disse ao Jornal de Negócios de quarta-feira passada que "não será com investimento público que se conseguirá evitar o abrandamento ou a provável recessão que se avizinha", porque "a ferramenta orçamental portuguesa está partida".

 

Há três dias, neste jornal, Luís Campos e Cunha explicou porque é preciso repensar os grandes projectos de investimento público. Ainda que se considere que o investimento público, limitado no passado recente, é agora necessário, importa verificar a sua qualidade. Serão investimentos que produzirão retorno, pagando-se a prazo?

 

Um projecto como o TGV não parece ter retorno algum. Isto, quando ainda não existe uma linha de caminho-de-ferro para mercadorias entre Sines e Espanha. Como o TGV é um empreendimento caríssimo, teremos de nos endividar ainda mais - e o crédito será agora bem mais caro. Não o reavaliar nas circunstâncias novas e excepcionais que estamos a viver (e que já levou a rever tanta coisa) não é só teimosia, é irresponsabilidade.

 

Por outro lado, a subida de 2,9% nos salários da função pública vai causar problemas às empresas, em particular às de menor dimensão. Ajuda a sério às PME seria o Estado pagar-lhes atempadamente as enormes dívidas que tem em atraso.

 

Ainda não há plena consciência, em Portugal, de que somos um país de devedores. Estado, famílias, empresas e bancos estão endividados até ao pescoço. Como a nossa poupança privada é mínima e a pública é negativa, temos de ir buscar dinheiro ao estrangeiro. Algo que terá de ser pago, de uma maneira ou de outra. Eis uma bela herança que deixamos às próximas gerações.

 

E não existem apenas as dívidas explícitas. O PÚBLICO de terça-feira passada referia a denúncia do anterior presidente da ERSE, Jorge Vasconcelos, quanto ao volume crescente e alarmante do chamado défice tarifário - a diferença entre os preços políticos fixados pelo Governo para a electricidade e os seus custos reais. Em 2009 o preço da electricidade vai subir, mas nem assim aquele défice deixará de aumentar. O futuro que pague a crise. 2009 é ano de eleições. Jornalista