Público - 16 Out 08

 

A vida é bela
Miguel Gaspar

 

Foi numa dessas últimas sextas-feiras em que o mundo parecia estar a ir ao fundo ao ritmo das quedas abruptas das bolsas que vi a mais extraordinária primeira página publicada em Portugal desde o início da crise financeira. O jornal era A Bola, a notícia a vitória do Benfica sobre o Nápoles e a manchete, extraordinária no contexto do marasmo bolsista, rezava: "A vida é bela."

 

Voltei a lembrar-me deste arremesso de euforia futebolística a propósito da insólita entrega a conta-gotas do Orçamento do Estado na Assembleia da República, que chegou primeiro através de uma pen sobre a qual não se sabe sequer se tinha conteúdo. Os números que os deputados ficaram sem saber, o ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, também parecia não os ter "consolidados na memória", segundo afirmou. Tal ministro, tal pen, portanto. Só que essa entrega às fatias permitiu ao titular da pasta das Finanças fazer o elogio do seu orçamento, sem outro contraditório além do lamento do deputado comunista Honório Novo, perplexo perante a ausência, no seu computador, dos dados que lhe teriam permitido analisar a proposta governamental.

 

O país onde uma vitória europeia do Benfica chega para esquecer um tsunami financeiro e aquele onde um governo vai ao Parlamento fazer de conta que entregou um orçamento são um e um só. Não surpreende portanto que este Orçamento tenha sido feito para o Governo nos poder dizer - sem contraditório da oposição - que a vida, na medida do possível, é bela. Não podemos ter o Ronaldo na Liga, mas o Reyes até que dá uns toques.

 

E o Orçamento veio ainda mostrar é que a vida também é bela para o Governo, desde que a crise internacional se instalou. Que não, dirão alguns. Então se há uma crise, o Governo não tem condições económicas para fazer o orçamento eleitoralista de que precisava, explicarão. Só que o Orçamento é inequivocamente eleitoralista. Por isso a função pública foi aumentada acima da inflação pela primeira vez desde 1999. Além de simpática, a medida visará comprar manifestações de ruas menos participadas nos próximos tempos. Na prática, não chega para sossegar os funcionários públicos, há anos a perder poder de compra, e entala o sector privado. Mas isso são outras conversas.

 

Sem crise, o Orçamento seria por certo muito mais generoso. Mas a derrocada dos mercados financeiros tem duas vantagens. Primeiro, o pouco que se dá neste Orçamento rende muito politicamente. Mesmo em tempo de vacas magras, os rapazes lá dão qualquer coisinha. Mas, segunda e mais relevante questão, a crise esconde o fracasso da política económica do Governo. O desemprego e o fraco crescimento económico passam a poder ser imputados à crise e não se fala mais nisso. Como a oposição não diz grande coisa, a crise passa a ser uma aliada potencial do Governo.

 

Na conferência de imprensa de ontem, que interrompeu para ir apanhar o avião, Teixeira dos Santos falou sobre o objectivo de criar 150 mil empregos numa legislatura, prometido pelo PS, de forma relevante: disse que é a economia que cria empregos e que, com a economia a descer, o mais provável é não se chegar lá. Como também não serão atingidas as metas de saída de funcionários da função pública, disse também o ministro. Adeus metas, chegou a crise.

 

Para mais, a maioria dos analistas vai dizendo que os objectivos relativos ao défice, ao crescimento económico e ao desemprego inscritos no Orçamento serão muito difíceis de atingir. Sobretudo quando vemos na imprensa internacional como a economia real vai pagar a factura do tsunami financeiro. Percebe-se que o Governo quis passar uma mensagem de confiança. Mas os eleitores sabem que a vida não está de todo bela - e não é uma pen que vai mudar isso. Jornalista