Público - 16 Out 08

 

O milagre da crise
Constança Cunha e Sá

 

Portugal chegou a ser um pequeno oásis, imune às trapalhadas da banca e às oscilações do mercado

 

Não sei que "problemas técnicos" levaram o ministro das Finanças a entregar, na Assembleia da República, três horas e meia depois do previsto, um esquálido Orçamento do Estado, enfiado numa pen, onde não se encontravam os elementos que permitiriam a análise do documento. Por volta das 21h, enquanto o ministro dissertava, em directo, para as televisões, sobre as contas que não tinha apresentado, os serviços da Assembleia informavam melancolicamente que o Orçamento tinha chegado "incompleto" e que ainda estavam à espera do "documento" que permitiria aos deputados avaliar as previsões do Governo. Na mesma altura, mais a norte, o primeiro-ministro, recusando-se a ser incomodado com percalços desta natureza, justificava o seu silêncio com uma razão de peso, exigindo aos jornalistas que respeitassem alguns compromissos fundamentais: "Deixem-me jantar. Tenho umas pessoas que me convidaram." Uma exigência compreensível, principalmente se se levar em linha de conta que o estômago e o convívio têm precedência sobre as contas do Estado.

 

Como seria de esperar, os partidos da oposição reagiram mal a esta pequena peripécia informática que os impediu de comentar, em tempo útil, os números que vão orientar a economia nacional durante o próximo ano. Aparentemente, achavam-se no direito não só de conhecer o documento integral no dia em que este devia ter sido apresentado, como - o que piora substancialmente o caso - de contrariar o optimismo do Governo com discursos derrotistas e dúvidas insustentáveis. Se o dr. Passos Coelho - que, ainda esta semana, defendia patrioticamente que o seu partido se devia abster de criticar o primeiro-ministro - estivesse à frente do PSD, tudo poderia ser diferente. Assim, com a oposição entregue a um grupo de derrotistas e de irresponsáveis, é natural que o Governo não lhe forneça alguns dados essenciais que seriam naturalmente utilizados contra os interesses dos portugueses, diluindo o agradável consenso que, neste momento, grassa um pouco por todo o país.

 

Ao contrário do que algumas (duas? três?) vozes têm dito, a apresentação do Orçamento, que não foi apresentado, confirma apenas a forma corajosa e determinada como o Governo tem enfrentado uma crise financeira que se abateu sobre nós, nas últimas três semanas, graças à "ganância" dos especuladores e aos excessos do "capitalismo de casino" com que os Estados Unidos andam a brincar há uma boa dezena de anos. Num primeiro momento, conhecendo os bons resultados da sua política reformista, o primeiro-ministro ainda chegou a pensar que podia iludir a situação internacional. À medida que os mercados iam entrando em colapso, o Governo (acompanhado pelo sempre solícito governador do Banco de Portugal) respirava optimismo e confiança: no meio da catástrofe internacional, Portugal chegou a ser um pequeno e tranquilo oásis, imune às trapalhadas da banca e às oscilações do mercado. Esta doce ilusão, no entanto, acabou por sucumbir perante a dura realidade dos factos. E, de um dia para o outro, o Governo descobriu que a crise externa tinha, de facto, atravessado as fronteiras. Sem tempo (nem feitio) para lamentar este pequeno erro de análise, o eng. Sócrates deixou cair as piedosas garantias que lhe iluminavam o discurso, renascendo como uma espécie de timoneiro da crise, capaz de acudir aos pobres e aos necessitados e decidido a enfrentar as dificuldades que nos espreitam e a recauchutar a economia com as chamadas medidas anticíclicas. Enquanto o dr. Pinho, com o mesmo à-vontade com que tinha anunciado um futuro radioso, decretava solenemente o fim de uma era de prosperidade, o eng. Sócrates proclamava a morte de uma ideologia, insurgindo-se contra os delírios do liberalismo e os perigos da falta de regulação.

 

A par desta súbita conversão aos valores do socialismo, o primeiro-ministro anunciou gloriosamente uma longa série de iniciativas: o exercício, que ganhou lastro, esta semana, com a apresentação parcial do Orçamento, nasceu há cerca de quinze dias, com o anúncio, na Assembleia da República, de três grandes medidas. De então para cá, a crise internacional transformou-se numa espécie de totoloto governamental: se, por um lado, permite disfarçar os problemas internos que nunca foram resolvidos, por outro, oferece condições únicas para abrir os cordões à bolsa e satisfazer, num ano eleitoral, os interesses dos mais variados sectores da população. Dos inquilinos aos senhorios, passando pelos funcionários públicos, pelos banqueiros ou pelos camionistas, são poucos os "privilegiados" do passado que não são agora recompensados pelos "privilégios" que injustamente lhe foram retirados.

 

Em suma, a crise internacional acabou por ser o balão de oxigénio de que o Governo necessitava para fazer frente às próximas eleições legislativas. A crise dispensa uma remodelação, a crise esvazia os hipotéticos conflitos com o Presidente da República, a crise oferece uma vida nova para além do défice, a crise restabelece a autoridade do primeiro-ministro e a crise dispensa as críticas irresponsáveis lançadas pela oposição. Não foi por acaso que, na terça-feira, o Governo ficou a falar sozinho enquanto a oposição se arrastava pelo Parlamento, dependente de uma pen que "até o Magalhães abria" e de um documento "incompleto" que impedia qualquer análise sobre o Orçamento. Isso só foi possível porque este Governo, determinado e corajoso, tem uma estratégia para o país que não se compadece com derrotismos perniciosos. Jornalista