Público - 10 Out 08

 

O sexo dos anjos
António Sarmento, Porto

 

Conta-se que quando os turcos cercavam Constantinopla, uma das grandes questões que agitavam os notáveis da cidade era a do sexo dos anjos. Enquanto os debates decorriam de forma apaixonada, as defesas descuravam-se. Até que os turcos acabaram por conquistar Constantinopla, hoje Istambul, em 1453. A verdade é que havia muito mais pessoas que se sentiam competentes para discutir o sexo dos anjos do que para pensar na defesa da cidade.

 

Como a cidade também era conhecida pelo nome de Bizâncio, passaram a chamar-se questões bizantinas aquelas que são ao mesmo tempo rebuscadas, artificiais e desprovidas de interesse prático. A discussão do casamento dos homossexuais é a nova versão das discussões bizantinas do século XVI. Enquanto o país está na iminência duma crise financeira que terá que ser encarada com a maior atenção, enquanto há ainda a possibilidade de tomar medidas preventivas que evitem consequências mais sérias para os portugueses, medidas essas que exigem a união entre todas as forças políticas e económicas, o Parlamento vai entreter-se com a discussão do casamento dos homossexuais.

 

Sempre se constatou que cada um procura falar daquilo que percebe ou julga perceber. Desta vez não é do sexo dos anjos, porque disso os deputados não percebem muito, nem de medidas económicas urgentes, o que será semelhante, mas do casamento de homossexuais, assunto em que alguns são bastante competentes.