Diário de Notícias  - 06 Out 08

 

Editorial

O duro diagnóstico de Cavaco e os seus alertas

 

Cavaco Silva escolheu o discurso tradicional do 5 de Outubro para traçar um retrato negro do País em termos sociais e económicos. Fê-lo de forma dura, apontando aspectos concretos que provam que a crise já se reflecte em Portugal: falou do desemprego, das famílias endividadas, da miséria de muitos reformados, das novas formas de pobreza e das desigualdades regionais. Um diagnóstico cru, que teve como objectivo final exigir que os agentes políticos falem a verdade aos cidadãos, criticando os que os iludem sobre a realidade.

 

Cavaco elegeu o aniversário da República para fazer os seus discursos mais contundentes. Nos últimos dois anos colocou na ordem do dia dois temas: a corrupção e a educação. Este ano não podia fugir à crise. E seus alertas foram dirigidos quer aos portugueses - em quem depositou confiança e solicitou empenho - quer ao Governo, demasiado optimista nos primeiros meses do ano ao ponto de baixar o IVA - a quem pediu que não contornasse as evidências e voltou a lembrar que não esquecesse os mais pobres.

 

As diferenças de opinião na forma como o Presidente e o chefe do Governo entendem que a crise deve ser comunicada é normal. Mas percebe-se que a distância entre Belém e São Bento é cada vez maior. Por isso José Sócrates elogiou o apelo à mobilização nacional, mas fez questão de relembrar os sucessos governamentais no equilíbrio das contas públicas, que permitem enfrentar a realidade económica com mais facilidade.

 

Mas a ideia-chave deste 98.º aniversário da República vai marcar a agenda: pela primeira vez um alto responsável do Estado decidiu diagnosticar sem meias palavras o estado do País. Cavaco Silva falou de condições difíceis. E pediu uma resposta. Aos políticos, mas também a todos os portugueses.

 

No campo financeiro, estamos a viver o maior teste à coesão da Zona Euro e da União Europeia, em geral, desde a criação da moeda única em 1999. A ausência de uma autoridade política central equivalente ao Governo Federal dos EUA torna muito difícil a assunção pelos 27 de um qualquer fundo unitário de resgate dos bancos europeus em dificuldade. A típica saída intermédia acordada este fim-de-semana em Paris preconiza que cada um limpe a sua própria casa, em concertação com o seu banco central, mas também em estreito entendimento com o Banco Central Europeu e com o conselho de ministros das Finanças dos 27, o Ecofin. Só a prática dirá se é suficiente.

 

Numa outra dimensão, a de propor soluções pós-crise que dêem uma acrescida solidez ao sistema financeiro globalizado, é que uma UE a uma só voz é mais necessária. Nesse sentido, trabalhar uma proposta europeia única de reconstrução de mecanismos de regulação e supervisão credíveis, aceites e postos em prática por todos, constitui uma prioridade para o médio e o longo prazos. Sendo certo que essa proposta vai encontrar, como já aconteceu no passado, as mais diversas resistências pelas potências financeiras tradicionais ou emergentes dos outros continentes.