Público - 03 Out 08

 

Tempos de Anti-Cristo

José Miguel Júdice

 

Em Portugal tudo parece sereno. A jangada de pedra parece ter-se deslocado de novo, desta vez para outro planeta

 

Estamos a viver tempos únicos e surpreendentes. Seguramente que, pelo menos em alguns condados do Alasca, Hank Paulson deve estar a ser considerado uma encarnação do Anti-Cristo e o próprio George W. Bush, por muito born again que tenha sido, deve estar a sentir cascos a substituir as unhas, pés diferentes, uma cauda a nascer e fumo a sair pelo nariz e boca.

 

A nacionalização de créditos, a tomada de posições de controlo em bancos pela União e até a nacionalização pura e dura de empresas, a intervenção nos sistemas de pagamento de prémios e salários, sacrossanto altar do liberalismo capitalista moderno em que ninguém é mais dono das empresas do que os seus gestores, tudo isso deve encher os norte-americanos de estupor e fazer-lhes arrancar barbas e cabelos... só de ouvir e vê-lo, como voltaria a dizer Camões, citando-se a si próprio, se ainda por aqui andasse.

 

Mas, mais do que isso. Estes acontecimentos dignos de memória irão ser estudados durante décadas e muitos pais irão dizer a filhos, e avós a netos, como antigamente das batalhas, "eu estive lá". O Mundo, tal como a minha e as gerações seguintes o conheceram, mudou neste Setembro negro mais do que alguma vez nos foi facultado observar. Ninguém - e muito menos este periférico, pouco sofisticado e ignorante escrevinhador - vos poderá anunciar o que se vai passar a seguir. Mas alguns amigos mais sabedores tiveram a lucidez - e a falta de caridade - de me recordar que também na crise de 1929, de vez em quando, se iam tomando medidas que se julgava, durante semanas, dias ou mesmo só algumas horas, que resolveriam os problemas, para que tudo voltasse a uma ordem que se julgava imutável... e que o era, mas apenas porque tinha morrido.

 

Perante isto, quando por esse mundo de Cristo (ou talvez já do Anti-Cristo) a situação é acompanhada com o dramatismo que se conhece, e com as precauções e reuniões que são de estilo, em Portugal - pequeno paraíso à beira-mar plantado? - tudo parece sereno e não conseguimos deixar de admitir que, parodiando Saramago, mais uma vez a jangada de pedra se deslocou, mas desta vez para outro planeta.

 

Em minha modesta opinião, o Presidente da República ou o primeiro-ministro, para não falar do ministro das Finanças, deviam rapidamente reunir algumas boas e experientes - e se possível independentes - cabeças para as ouvir sobre os efeitos que sobre Portugal e os portugueses podem cair e até para colher algumas hipotéticas ideias para minimizar tais efeitos.

 

Mas não é tudo. O governador do Banco de Portugal não se vê e não se sente, a Comissão de Economia da Assembleia da República parece-me distraída, os partidos de oposição - para além das habituais e naturais acusações de que a culpa é do Governo - também não estão a chamar sábios ou, melhor, experientes (que muito mais do particular sabem, como Camões me lembra de novo) para os ajudar a revelar aos portugueses que estão atentos e que estão preparados se as coisas piorarem.

 

Aliás, como se sabe, é habitual que Governo e partidos de oposição por vezes conversem quando se trata de preparar decisões, por exemplo em questões de unidade europeia. Não será este um problema com dimensão muito maior e que mais justificaria uma reunião desse tipo?

 

Claro que - já adivinho a resposta - tudo isso poderia gerar pânico e acentuar preocupações. É verdade. Tão verdade quanto deixar de jogar à sueca na sala quando o fumo do incêndio da casa ao lado começa a entrar pelas janelas abertas. Isso provocaria nas crianças o receio, calcule-se, de que o fogo pudesse invadir o quarto onde tranquilamente vêem televisão ou surfam na Internet.

 

Ser optimista nesta conjuntura é na melhor das hipóteses um sinal de loucura, na pior das hipóteses uma criminosa forma de nos atirar areia para os olhos e com isso acrescentar aos problemas uma infecção ocular. Os portugueses não são parvos. Não esperam de quem os governa, e de quem os deseja governar, que do dia para a noite se tornem em sofisticados especialistas em finanças internacionais, em iluminados leitores de futuríveis, em sábios que acertem à primeira onde outros com muito mais responsabilidades falharam clamorosamente.

 

O que precisamos de saber é se os responsáveis estão conscientes, estão a encetar um learning process, são capazes de ouvir os que sabem mais do que eles; e, com isso, acreditarmos que se vão preparando para a eventualidade provável de serem confrontados nos próximos tempos com situações-limite onde, por impreparação, podem deitar tudo a perder.

 

Posso estar, realmente, enganado. Deus queira que sim. Mas não consigo acreditar que a injecção (aliás ainda hipotética no momento em que escrevo) de 700 mil milhões de dólares americanos no sistema financeiro, pela compra de activos tóxicos aos bancos e quase-bancos, faça o milagre de resolver os problemas que atingem o sistema económico-financeiro internacional. Não consigo deixar de pensar que isso não é mais do que uma dose (admita-se que cavalar) de vitaminas ou de aspirinas, que trata as consequências, deixando intocadas as causas.

 

Seja ou não assim, Portugal é um país demasiado pequeno para que nesta altura se não toque a reunir. Até porque a frase assassina do secretário-geral do PS francês, François Hollande ("não chamem as formigas depois do tempo das cigarras"), aplica-se mal a Portugal: o esforço de controlo do défice desde 2005 demonstra que seria injusto se Manuela Ferreira Leite respondesse desse modo a um hipotético convite de Sócrates ou de Cavaco para uma reflexão conjunta e sobre medidas a tomar.

 

Claro que temos outra solução. Continuar a dar a prioridade a casas (mal, claro) distribuídas nos últimos 30 anos em Lisboa. Se assim for, fica aqui desde já uma palavra de solidariedade a Santana Lopes, com base na célebre regra "cadê os outros?". Advogado