Público - 21 Out 07

O voto dos portugueses assusta os políticos
A. Álvaro de Sousa

A adesão de Portugal à União Europeia é permanentemente matraqueada pelos políticos como a tábua de salvação para a qualidade de vida dos portugueses, o que, numa óptica de subsídios financeiros, é inquestionável. Não fora a adesão à UE e muitas das vias de comunicação de que hoje usufruímos não existiriam, como também nos foram dadas oportunidades de requalificar as nossas unidades produtivas e os recursos humanos para enfrentar a designada concorrência da economia global, o que teremos desaproveitado, embora nos tenhamos abotoado com os respectivos fundos comunitários.

Assim sendo, com tão exuberantes benefícios que a UE proporciona, que razões haverá para negar aos beneficiados portugueses, sempre tão atentos, venerandos e obrigados, a oportunidade de manifestarem o seu agradecimento a quem tanto lhes tem dado e continuará a dar, agora e durante mais seis anos, à cadência de dez milhões de euros por dia?
Tanto bastou ao novo presidente do maior partido da oposição ser recebido pelo seu homólogo da Comissão Europeia para de imediato passar por cima de uma deliberação do conselho nacional do seu partido que, por unanimidade, aprovara a exigência de submeter ao escrutínio dos portugueses, por meio de um referendo, o Tratado Constitucional europeu que tem vindo a ser negociado no segredo dos gabinetes ministeriais, acenando com a existência de outras formas democráticas para fugir ao veredicto popular. É caso para perguntar: por que razão os políticos têm medo do voto dos portugueses? Será o receio de que durante a campanha eleitoral os cidadãos fiquem a saber que a sua independência face a países terceiros ficará mais reduzida? Que deixando de existir a exigência da unanimidade nas votações, as nações mais poderosas imporão às outras as políticas que lhes interessem? Ou, no limite, procurem evitar que as suas políticas internas sejam escrutinadas e censuradas? Uma coisa é certa: a recusa do referendo tem algo de obscuro para a vida dos cidadãos, caso contrário, os políticos seriam os primeiros e principais interessados em munir-se de um "certificado" popular, para agitarem em todas as ocasiões em que os governos se encontram cerceados de proceder a ajudas em momentos de crise ou obrigados a implementar medidas impopulares, em resultado de legislação europeia.

A. Álvaro de Sousa
Valongo