Diário de Notícias - 25 Out 06

Competitividade ameaça previsões do Governo

Sérgio Aníbal

 

A perda de competitividade da economia, o elevado nível de endividamento das famílias e empresas e o esforço de consolidação orçamental do Estado vão impedir uma recuperação rápida da economia portuguesa e colocar o País a crescer abaixo das projecções do Governo até 2009, antecipa o Fundo Monetário Internacional (FMI).

Na análise que publicou ontem sobre a economia nacional ao abrigo do artigo IV, o Fundo antecipa uma taxa de crescimento para o próximo ano de 1,5%, um valor que fica abaixo dos 1,8% previstos pelo Governo. A partir daí, a diferença mantém-se. Para 2008 e 2009, o FMI coloca Portugal a crescer a taxas de 1,9% e 2,2%, respectivamente. O Governo está a contar com uma aceleração para taxas de 2,4% e 3%.

Um dos efeitos do crescimento mais lento faz-se sentir logo em 2007. O Fundo pede um controlo rigoroso da despesa pública "uma vez que o crescimento do PIB de 1,8% em que se baseia o Orçamento é de alguma forma mais optimista que a previsão da nossa equipa de 1,5%".

Os motivos para a visão mais pessimista em relação ao crescimento estão essencialmente em factores de ordem interna. O Fundo diz que o contributo externo tende a melhorar, mas salienta que o consumo privado vai manter-se baixo (devido ao desemprego e ao endividamento), o investimento vai ser retardado (até que as empresas equilibrem as suas contas) e o consumo público não pode ajudar (enquanto as contas do Estado não forem ajustadas). "Portugal enfrenta um ambiente difícil, com um défice orçamental e externo significativos, uma posição competitiva fragilizada e um elevado endividamento do sector privado", afirma o relatório.

Alguns dos entraves à aceleração da actividade merecem uma atenção especial. Primeiro, o relatório conclui que o nível de endividamento tem tanta influência no investimento das empresas como as expectativas de crescimento. E que por isso, "enquanto as reformas estruturais devem ter um efeito positivo no investimento, a sua recuperação deve ser atenuada pelo impacto da ainda elevada dívida das empresas.

Depois o FMI diz que a perda de competitividade da economia portuguesa pode significar que Portugal terá de atravessar, nos próximos anos, "um longo período de ajustamento". De acordo com as contas do Fundo, Portugal regista neste momento um diferencial de competitividade face aos seus parceiros europeus situado entre 10% e 20%. E, por isso, mesmo que se verifiquem reduções fortes dos salários reais e subidas acima da média da produtividade, a recuperação da posição competitiva pode levar até sete anos. As autoridades portuguesas, no comentário ao relatório que também foi publicado, dizem duvidar destas duas conclusões do FMI.