Portugal Diário - 14 Out 06

Trabalhos escolares à venda na net

Por 12 euros é possível comprar um trabalho. PDiário falou com professor que já encontrou conteúdos plagiados online. E até lhe fizeram encomendas. Há docentes que penalizam os alunos, outros não detectam as cópias

E se em vez de fazer aquele trabalho académico que o professor pediu, pudesse simplesmente comprá-lo na internet? Há muitos sites onde os alunos podem encomendar trabalhos por apenas 12 euros (15 dólares).

«Não tenho conhecimento de nenhum site português, mas sei que os alunos portugueses utilizam os sites estrangeiro», disse ao PortugalDiário Norberto Pires, professor no Departamento de Engenharia Mecânica da Universidade de Coimbra.

O docente conhece bem a realidade dos trabalhos copiados da internet. «Já fui contactado por esses sites para fazer trabalhos encomendados por alunos», contou. Por ter vários artigos publicados online, há também quem dispense os intermediários e lhe envie e-mails directamente a pedir para fazer um trabalho, a troco do dinheiro. «Quando percebo que é essa a intenção, deixo logo de responder», garantiu e explicou que essas propostas surgem até do estrangeiro, nomeadamente do Brasil.

Norberto Pires também já viu o seu trabalho plagiado várias vezes. «Às vezes estou a fazer pesquisas na internet e encontro pedaços inteiros de trabalhos meus, muitas vezes sem referência ao meu nome».

Como docente também já recebeu trabalhos copiados. E como sabe que o trabalho não foi feito pelo aluno? «É fácil perceber. Há mudanças de estilo de escrita da introdução para o resto do texto, há palavras escritas em brasileiro, links escondidos atrás de palavras», explicou.

E garante que penaliza sempre o trabalho quando nota que há plágio, chegando a anular quando percebe que o texto é integralmente copiado.

O que leva um universitário a copiar um trabalho

Pedro tem 27 anos. Terminou o curso de jornalismo em 2002, quando a internet ainda não tinha a importância que tem hoje na vida dos estudantes, mas, mesmo assim, conta que, durante o curso, copiou um trabalho e excertos de outros, que assumiu «como sendo produção própria».

«Preguiça», «falta de tempo devido ao exagerado número de trabalhos» e «desconfiar que os professores nem viam os trabalhos» levaram-no a optar pela cópia. Num dos casos, conta que copiou o trabalho «de um site brasileiro (logo estava em português do Brasil)» e admite que não o traduziu «suficientemente bem», mesmo assim, o professor não detectou o plágio.

Também João, um engenheiro de 31 anos, admite ter copiado «partes de trabalhos», afirma que era um procedimento «frequente» entre os colegas e garante que nunca foi apanhado.

Foi o facto de poder obter informação de forma rápida e fácil que o levou a copiar os conteúdos digitais.

Para André, estudante de Gestão de Marketing, copiar «vale sempre a pena, desde que não se copie o trabalho todo, pois assim pode ser considerado uma pesquisa e sempre se aprende qualquer coisa».

Norberto Pires considera que são os alunos que trabalham apenas para tirar positiva, sem procurar saber mais, que copiam trabalhos da internet. «São os mesmos alunos que não teriam problema em copiar num exame, em colar-se a um trabalho de grupo e não fazer nada».

Copiar conteúdos errados

Como na internet também há muita informação incorrecta, os alunos que copiam conteúdos correm o risco de plagiarem coisas erradas. Norberto Pires conta que já recebeu trabalhos de alunos com informações incorrectas. «Quando lhes dizia, eles respondiam que estava assim na internet, como se fosse a fonte de conhecimento mais fiável», explica.