Público - 07 Out 06

Os verdocas

Helena Matos

 

Não sei se conhecem o Verdocas mas muito resumidamente posso dizer que o Verdocas é um desenho animado que representa um menino com cauda que é suposto ter um comportamento ambientalmente exemplar. Este menino-com-cauda ou esta cauda-com-menino - convém não adoptar expressões antropocêntricas numa época em que se alargou o conceito de adopção aos cães e gatos - não tem dúvidas sobre o que devemos fazer para salvar o planeta. Desde lavar o chão com vinagre a manufacturar tudo e mais alguma coisa, o Verdocas vai doutrinado as criancinhas na fé de que há que salvar o planeta.
Não deixa de ser peculiar e um pouco megalómana esta presunção de que temos de salvar o planeta. Na verdade, o planeta já existia antes do aparecimento da espécie humana e tudo indica que continuará a existir após o desaparecimento da nossa espécie.
Mas o uso de expressões como "salvar o planeta" não se limita a ser inadequada. Na verdade, ela dá conta da transferência de conceitos religiosos como a temática da salvação versus a destruição/apocalipse para o ambiente que, dessa forma, se transfigura numa espécie de ecomisticismo.
Neste misto de Teologia Ecológica, a espécie humana, sobretudo os seus exemplares que residem nos países industrializados, representa o pecado. Não por acaso, o espaço ex-líbris desta visão ecomística da Terra são os designados santuários ecológicos onde é suposto acontecer o que se designa como comunhão com a natureza. À partida, um santuário ecológico pode ficar em qualquer local do planeta desde que nele não existam seres humanos. Em alguns casos, concede-se que alguns humanos, pouquíssimos de preferência, vivam no santuário mas têm de fazê-lo segundo regras espirituais e materiais que os apartem, na verdadeira acepção da palavra, dos outros humanos. Ou seja, daqueles que já caíram na tentação do bíblico conhecimento agora transfigurado em progresso. Se repararmos, grande parte do discurso sobre o fim do mundo rural na Europa, a vida dos índios da Amazónia ou o desaparecimento das tradições é muito semelhante às intervenções religiosas sobre a queda e a perda da inocência.
E assim, seja na versão infantil do Verdocas ou nos seus desenvolvimentos adultos em que a ecologia mal se distingue do reiki, tudo isto tem produzido milhares de militantes da "causa da salvação do planeta no seu todo". Em Portugal, por uma vez, podemos agradecer ao nosso atávico temor do ridículo não andarmos aos pulinhos em recreações de antigas festas do calendário pagão, o que não quer dizer que não soframos as consequências da teologia da "salvação do planeta no seu todo".
Em 2006, os portugueses vivem na absoluta convicção de que a ecologia se impõe por decreto e, como se tal não bastasse, demitem-se de toda e qualquer discussão em que não percebam a quem podem chamar mau ou bom. Por exemplo, as pessoas adoram falar de combustíveis verdes até ao preciso momento em que percebem que a opção por estes combustíveis pode implicar a proliferação das culturas agrícolas geneticamente modificadas. Aí desistem imediatamente do assunto e, quando muito, concluem que antigamente, quando não havia dilemas destes, é que era bom. O mesmo se passa com as alterações de clima. Enquanto este é um assunto que não nos diz respeito como parte responsável, não faltam entusiastas do Protocolo de Quioto, mas assim que se começam a enumerar as multas que Portugal terá de pagar por incumprimento dos seus compromissos nesta matéria ou as questões da concorrência industrial com a China não mais se ouve falar de clima. Se não existem bons e maus, sobretudo se o assunto em causa não permitir aos seus promotores reverem-se no papel dos bons, nada feito.
Quanto às associações de ambiente ou conservação da natureza estão mais ou menos desaparecidas ou reduzidas a uma caricatura de si mesmas. Das raras vezes que avisto os dirigentes da Quercus é na RTP, onde ensinam, num minuto, o que se deve fazer para evitar que as suas casas sejam umas estufas no Verão e uns frigoríficos no Inverno. Ao contrário do que acontece com o Verdocas, os conselhos dados pelos dois dirigentes ou funcionários da Quercus estão imbuídos do mais elementar bom senso. Contudo, a Quercus não é um centro de educação ambiental. É uma associação que já teve capacidade para marcar agenda. Hoje não tem. E neste ofuscamento a Quercus não está infelizmente sozinha.
As associações de ambiente sofrem neste momento a ressaca do seu envolvimento em Foz Côa - um assunto que nada tinha a ver com ambiente mas sim um pouco com arqueologia e muito com técnicas de agitação e propaganda. Por ironia do destino, foram as associações de ambiente que arcaram com o ónus das promessas dos milhões de turistas e hoje, perante o falhanço de tudo isso, dificilmente conseguem sequer questionar a construção da barragem do Sabor - essa, sim, com matéria ambiental a merecer maior debate. Existem, porém, outros factores a ter em conta quando se fala do declínio da capacidade de intervenção e reflexão das associações de ambiente em Portugal. Por exemplo: qual é o peso dos funcionários na estrutura e nas orientações das próprias associações? O outro dado é geracional. Os dirigentes que deram protagonismo à Quercus e transformaram a Liga para a Protecção da Natureza (LPN) dum clube de biólogos numa associação interventiva declinaram os convites de Cavaco Silva para integrar os seus governos - mas entraram nos corredores do poder na companhia de António Guterres e, sobretudo, de José Sócrates. As consequências disto são muitas e nem todas negativas. Contudo, basta rever as declarações dos dirigentes da Quercus e da LPN em matérias como o aeroporto da Ota e a construção da barragem de Odelouca para se perceber quem está ou não no Governo.
Mas à parte isto (que já não é pouco) existe ainda um outro factor a augurar maus dias para o ambiente em Portugal: aquilo que foi apresentado aos portugueses como mecanismos de protecção do ambiente e da paisagem - PDM, RAN, REN - transformou-se na consagração legal da desigualdade dos cidadãos perante o Estado e no reforço do papel deste mesmo Estado enquanto distribuidor de almejados estatutos de excepção. Note-se que os piores exemplos da degradação do ambiente, do ordenamento e da paisagem em Portugal não resultam da falta de legislação. Resultam sim da forma como mecanismos frequentemente muito restritivos para a generalidade dos cidadãos têm sido particular e insondavelmente interpretados por governos, autarcas, comissões e institutos estatais.
Não é simples coincidência que a maior parte dos casos de corrupção envolvendo autarcas, ministros, governos... nos conduza agora aos pelouros do ambiente. Estes não prestam serviços directamente aos cidadãos como a saúde ou a educação. Não têm a visibilidade de quem gere orçamentos ou obras públicas. Os pelouros do ambiente têm contudo o poder do licenciamento. O poder de escolher a quem se diz sim quando a regra oficialmente é dizer não. Tudo em nome da salvação do planeta, como diria o Verdocas. De preferência de um planeta muito longínquo, digo eu. Jornalista