Público  - 26 Nov 08

 

Criar um ambiente de "terra queimada" é suicidário em política

José Manuel Fernandes

 

Quando a crise alimenta um descontentamento inorgânico, minar todas as referências políticas, incluindo o Presidente, pode ter resultado no curto prazo mas é um erro estratégico

 

Há 200 anos Portugal lutava pela sobrevivência. Ou, se preferirmos, procurávamos sobreviver no meio da maior miséria e sofrimento com a ajuda de um corpo expedicionário inglês comandado pelo duque de Wellington. Os últimos e decisivos combates seriam travados em 1810, no Buçaco e frente às Linhas de Torres Vedras e é pena que não os celebremos com o mesmo destaque com que vamos comemorar a proclamação, cem anos depois, da República. Quem procurar uma boa introdução aos combates que então se travavam pode ler um livro recentemente editado, Wellington contra Massena (Gradiva) onde o papel do disciplinado exército inglês, o sacrifício de milhares de portugueses, a traição de alguns nobres e, sobretudo, o desprezo absoluto pela vida humana, a total desumanidade do marechal francês - o mais talentoso depois de Napoleão -, nos permitem não só perceber como um exército mais pequeno venceu um mais poderoso, mas também como Portugal era pobre e mais pobre ficou ao praticar a política de "terra queimada" indispensável para travar o avanço dos franceses.

 

Nessa altura esse supremo sacrifício justificava-se, mesmo que nem sempre tivesse sido bem aceite: tratava-se de preservar a nossa independência. Mas as feridas que deixou foram terríveis. Ainda há poucos anos era possível ouvir, nas regiões rurais, quem recordasse a passagem dos homens de Massena, as searas e as colheitas destruídas e as aldeias abandonadas para que não encontrassem alimento, as sangrentas represálias do chamado "Exército de Portugal", o corpo militar que Napoleão colocara sob o comando de Massena para dominar este irredutível canto da Europa.

 

Mas se há 200 anos a política de "terra queimada" foi essencial para o triunfo dos britânicos e dos portugueses, em política e em tempos de crise recorrer à política de "terra queimada" é extremamente perigoso. Mesmo quando alguém se sente cercado.

 

É pois conveniente olhar em perspectiva para alguns acontecimentos políticos dos últimos dias e nunca esquecer que, mesmo os que não acreditam em bruxas admitem, à espanhola, "pero que las hai, las hai".

 

Ora aquilo a que assistimos foi a um crescendo da contestação social, protagonizado sobretudo pelos professores mas latente em muitos sectores da sociedade, que ao mesmo tempo que engrossava dava sinais de não ter ponto de fuga. Ou, para ser mais exacto: o descontentamento, nalguns casos mesmo a fúria, de muitos portugueses face a políticas do actual Governo não era enquadrável por nenhum partido da oposição com respeitabilidade para ser alternativa.

 

O culminar desta fervência inorgânica foi o episódio dos "ovos", um episódio que ameaçava tornar os ministros prisioneiros nos seus gabinetes: onde quer que emergissem podiam ser humilhados. Já não por sindicalistas facilmente identificáveis, mas por uma massa de gente que surgia de lado nenhum mobilizada por SMS. Corria--se o risco de nem sequer poder, vejam lá, continuar a entregar computadores Magalhães...

 

Quando, no meio deste ambiente político, estalou a crise do BPN, e quando esta se revelou nos seus aspectos mais sombrios, tornou-se possível dirigir a atenção para outro lado, e não restam dúvidas que a oportunidade seria aproveitada para virar os canhões para outra direcção. A ideal: o Presidente da República, de repente o estadista que podia sair à rua sem correr o risco de ser recebido com ovos ou tomates.

 

A oportunidade foi dada por Dias Loureiro que, mesmo podendo estar absolutamente inocente, e deve presumir-se que está, se começou a comportar como um fugitivo. Ainda por cima um fugitivo mal amanhado. O combustível foi atirado para a fogueira por ondas de boatos que depressa começaram a circular pelas redacções. E o resultado está à vista.

 

Em pouco tempo o Presidente da República tornou-se no alvo das atenções, sentiu-se obrigado a vir defender a sua honra num comunicado e acabou encurralado por Dias Loureiro que, apesar da clareza das mensagens enviadas por Belém, se fez de inocente, pediu uma audiência, violou depois o compromisso sagrado do sigilo e, fosse o que fosse que se tivesse passado na conversa em Belém, deixou Cavaco Silva sem alternativa senão dizer que não podia condenar quem nem sequer tinha ainda sido formalmente acusado.

 

Desta forma, por via de boatos de origem indefinida e da acção do dirigente do PSD que se prestou a homenagear publicamente o "menino de ouro do PS" no lançamento de um livro, o país arrisca-se a regressar ao clima de uma guerra de "terra queimada" onde nenhuma referência se salva: nem Governo, nem oposição, nem Presidente. Em democracia não se deve brincar com o fogo - mas numa democracia em tempos de crise, optar pela táctica da "terra queimada" pode ser suicidário.