Público  - 26 Nov 08

 

OCDE prevê mais 50 mil desempregados em Portugal no próximo ano
Sérgio Aníbal

 

País pode chegar a 2010 com meio milhão de desempregados. Trabalhadores do sector automóvel e com contratos a prazo são os mais atingidos pela crise

 

A queda dos principais parceiros comerciais de Portugal vai forçar a economia nacional a um crescimento negativo no próximo ano e desencadear a subida da taxa de desemprego para o nível anual mais alto de que há registo, prevê a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE).

 

De acordo com as previsões ontem apresentadas pela entidade sedeada em Paris, a economia portuguesa vai, entre o presente ano e 2010, ficar sempre com uma taxa de crescimento económico claramente abaixo de um por cento, com destaque para a contracção de 0,2 por cento prevista para 2009.

 

A consequência mais grave para os portugueses será o agravamento acentuado da situação no mercado de trabalho, com a taxa de desemprego a pode passar de 7,6 por cento em 2008 para 8,5 por cento em 2009 e 8,8 por cento em 2010. Esta subida da taxa, significaria - tendo apenas em conta o actual valor da população activa - o aparecimento de cerca de 50 mil novos desempregados durante o próximo ano e de cerca de 20 mil em 2010. O número total de desempregados ficaria, no final desse ano, muito próximo do meio milhão e a taxa seria, em termos anuais, a mais alta desde 1983, o primeiro ano para o qual foi possível obter dados junto do INE.

 

OCDE mais pessimista

 

A OCDE torna-se, com estas previsões, na primeira entidade a antecipar um aumento acentuado deste indicador em Portugal como consequência da actual crise económica. Outras entidades, como a Comissão Europeia, apesar de preverem um crescimento lento, apontavam para subidas marginais do desemprego.

 

Stefano Scarpetta, o director da divisão de Emprego da OCDE, explica, em declarações ao PÚBLICO, que "até agora, Portugal, como outros países, beneficiaram de uma descida do desemprego na primeira metade deste ano, mas agora a situação está a inverter-se". Este economista assinala que, a nível internacional, os sectores mais afectados são a construção e o automóvel. No caso português, afirma, este último pode ser o mais preocupante. Scarpeta lembra ainda que o aumento do desemprego se faz normalmente à custa dos trabalhadores com baixas qualificações, jovens e com contratos a prazo. Nos últimos três anos, o crescimento do emprego em Portugal fez-se essencialmente pelo aumento dos contratos a prazo.

 

Num cenário deste tipo, torna-se mais difícil a concretização do objectivo de criação de emprego traçado, no início da legislatura, pelo Governo. De salientar, contudo, que Portugal não está sozinho nesta tendência negativa. Prevê-se igualmente o aparecimento de oito milhões de novos desempregados nos países industrializados do Globo entre 2008 e 2010.

 

A previsão ontem revelada pela OCDE para 2009 é a primeira a colocar o crescimento português no próximo ano abaixo de zero. Isso deve-se mais ao facto de a OCDE levar em conta os últimos desenvolvimentos negativos do que ao facto de ser mais pessimista que o FMI ou a Comissão Europeia. A OCDE revela uma particular preocupação relativamente ao que se irá passar ao nível das exportações e do investimento.

 

Mas, apesar do crescimento negativo, Portugal poderá obter, segundo a OCDE, um resultado melhor do que a zona euro, cuja projecção de crescimento é de -0,6 por cento para 2009. A confirmar-se, será a primeira vez em oito anos que Portugal conseguirá uma variação do PIB mais positiva (neste caso, menos negativa) do que a média dos seus parceiros do euro.

 

Nigel Pain, o economista da OCDE encarregue da análise sobre Portugal, explica que este resultado "se deve, em parte, ao facto de a economia portuguesa não ter, como aconteceu na maior parte da Europa, crescido muito nos últimos dois ou três anos anos e não ter registado, por exemplo, uma escalada de preços no seu mercado imobiliário ou um aumento muito forte do crédito concedido". Ou seja, Portugal já cresceu pouco nos últimos anos, evitou alguns excessos e a correcção, agora, será menos brusca.

 

Convergência curta

 

No entanto, o regresso de Portugal a uma convergência com a média europeia deverá ser de muito curta duração. De acordo com a OCDE, a economia nacional não conseguirá, logo em 2010, recuperar de uma forma tão forte como os seus parceiros europeus. Enquanto a zona euro deve crescer, nesse ano, a uma taxa de 1,2 por cento, Portugal fica-se pelos 0,6 por cento.

 

A que se deve este regresso tão rápido a uma divergência? Nigel Pain diz que Portugal terá de continuar a passar por "um período longo de ajustamento" e lembra que "o crescimento potencial português está entre 1,1 e 1,2 por cento, enquanto na zona euro se situa entre 1,75 e dois por cento". Assim, no momento em que a crise se dissipar, as debilidades estruturais portuguesas virão ao de cima, colocando o país a crescer menos que os seus parceiros europeus.

 

O economista da OCDE não é, ainda assim, um defensor da adopção em Portugal de políticas de estímulo económico. Tudo por causa do actual valor do défice público. "O Governo português tem menos espaço de manobra do que outros Executivos", afirma, defendendo que o país "deve tirar partido da descida de taxas do BCE e do efeito positivo dos estímulos orçamentais de outros países europeus, mantendo uma atenção especial ao que se passa no seu sector financeiro".