Diário de Notícias - 17 Nov 08

 

Ajudar as famílias para apoiar as crianças
Patricia Jesus

 

Solidariedade. A casa Ronald McDonald de Lisboa acolheu o primeiro casal com um filho internado no início do mês. Localizada junto ao Hospital Dona Estefânia, permite aos pais ali instalados prestar uma assistência constante aos filhos durante a sua permanência no hospital. O conceito foi lançado nos EUA

 

Internamento é corte brusco na dinâmica familiar

 

"A nossa vida há três meses resume-se ao hospital", conta Ricardo. O jovem militar, de 26 anos, e Vanda, de 23, viveram os últimos dois meses no Dona Estefânia. O filho, Bernardo, foi internado pouco depois de fazer seis meses com síndrome nefrótica, explica Ricardo, apressando-se a traduzir por miúdos - "os rins deixaram de funcionar". "No primeiro ano de vida são situações muito graves", explica Margarida Abranches, pediatra.

 

Os últimos meses foram complicados e por isso não queriam perder o Bernardo de vista. Assim, até há duas semanas, "cada um deles ficava uma noite no hospital e o outro ia a casa, em Aveiras de Cima, tentar desenrascar, tratar da roupa", conta Ricardo. "O cansaço físico e psicológico é tremendo e não há cabeça para mais nada", acrescenta. "Felizmente, as coisas começaram a correr bem para ele e também melhoraram para nós", diz. Há 15 dias mudaram-se para a casa Ronald McDonald, a cinco minutos do hospital. "Funciona como uma base de apoio e, como só um é que pode ficar com o bebé durante a noite, o outro vem cá dormir, tratar da roupa". "No fundo, aqui estamos mais perto de casa", diz.

 

Pela casa, inaugurada no início do mês, já passaram famílias de Viseu, Santarém, Faro, Setúbal e Évora. Em comum, têm o facto de ter uma criança internada na Estefânia. Foi construída para isso, trazendo para Portugal um projecto de solidariedade que existe em todo o mundo.

 

Como o hospital serve toda a área sul do País, ilhas e países de língua oficial portuguesa, há muitas famílias deslocadas, explica Margarida Abranches. A médica não tem dúvidas de que a presença dos pais é fundamental para a recuperação das crianças: "O internamento é um corte brusco e violento na dinâmica familiar. Se os pais estiverem presentes, as crianças aceitam muito melhor a intervenção dos médicos e dos enfermeiros. Sentem-se protegidas", conclui.

 

Por isso, o hospital tem uma política de portas abertas, "os pais podem estar com o bebé 24 horas por dia". "Mas para estar a 100% precisam de um sítio onde descansar e o hospital não tinha condições para isso", diz a pediatra. "Este projecto veio acrescentar essa capacidade", conclui. São os serviços sociais do hospital que seleccionam e encaminham as famílias para a casa.