Público  - 02 Nov 07

Uma em cada oito mulheres...
Laurinda Alves

EDe acordo com as estatísticas, uma em cada oito mulheres vão ter cancro de mama. Más notícias, portanto. Uma em cada oito é uma percentagem aterradora para quem, como nós, teme um diagnóstico que levanta possibilidades como a amputação de uma parte do corpo que representa a nossa feminilidade, bem como as dores físicas e emocionais que ela acarreta. Nas mulheres, o cancro da mama convoca terríveis fantasmas ligados à auto-imagem, à sexualidade e à maneira como ela passa a ser vivida durante e depois dos tratamentos e eventuais operações.

Estes fantasmas omnipresentes levam-nos, muitas vezes, a ignorar uma realidade que tem que ser olhada de frente e, tanto quanto possível, minimizada.

Algumas ainda preferem a fuga em frente e não fazem exames regulares, mas há cada vez mais mulheres com consciência da importância vital de uma detecção precoce.

As boas notícias em matéria de cancro da mama prendem-se justamente com a possibilidade de cura em muitos casos diagnosticados a tempo e, como diz o especialista Joaquim Abreu de Sousa, médico coordenador da nova Clínica da Mama do Instituto Português de Oncologia do Porto, as estatísticas também podem ser usadas a nosso favor, ou seja, em vez de enfatizarmos que uma em cada oito mulheres vão ter cancro, podemos sublinhar que 75 em cada 100 vão ficar curadas. Parece-me uma boa estratégia.

Estive na inauguração desta novíssima Clínica da Mama do IPO e impressionaram-me as instalações, mas, acima de tudo, a quantidade e a qualidade dos serviços que ali vão ser prestados. As mulheres com diagnóstico de cancro de mama precisam de tratamentos adequados ao seu caso e merecem um acompanhamento à medida das suas circunstâncias. Nesta lógica, o propósito da Clínica da Mama é prestar um serviço de excelência aos doentes (1% serão homens!) que passam a ter ali a sua consulta de referência e uma infinidade de serviços associados que vão de uma boa comunicação da doença (para atenuar o drama do impacto inicial) aos tratamentos, passando pela actualização das novas abordagens terapêuticas e pela melhoria substantiva da qualidade de vida, nomeadamente nas questões mais sensíveis que se prendem com a dor física, mas também com os efeitos psicológicos e emocionais provocados pela própria doença ou pelo trauma da amputação, quando ela é inevitável.

Por tudo isto e pelo que me foi dado ver e ouvir nas novas instalações desta clínica do IPO do Porto, nem tudo são más notícias para as mulheres, quando falamos em cancro da mama. Que alívio.

Como está provado que apenas 1% dos doentes com cancro de mama são homens, quase toda a comunicação sobre a doença é feita no feminino. Falo de livros, manuais e folhetos que existem e não só explicam os passos a dar, como desmistificam alguns dos piores medos.

Na nova Clínica da Mama do IPO do Porto há um pequeno livrinho cor-de-rosa que chama a atenção pelo título: Mantenha-se Bonita! Conselhos Práticos.

Trata-se de uma publicação simples que aborda de forma directa e construtiva as questões estéticas e as reacções às alterações físicas provocadas pelo cancro da mama. Assume, à partida, que a doença e os tratamentos alteram quase sempre a imagem corporal que cada pessoa tem de si, fala das mudanças após as cirurgias, não evita o tema "queda do cabelo" e fala das consequências muitas vezes penosas das sessões de quimioterapia.

De uma forma positiva e sem rodeios ajuda a perceber quais as melhores escolhas a fazer, que maquilhagem usar, que cuidados a ter com a pele, o corpo, os olhos e os dentes, que opções tomar quanto à queda do cabelo e, ainda, qual a roupa que permite ter melhor aparência nos casos em que as mulheres foram mastectomizadas. Em resumo, é um livrinho que não tem nada a ver com o tratamento médico da doença, mas ajuda as pessoas a sentirem-se menos doentes e menos tristes.

Li há pouco tempo na revista Única uma breve entrevista do Pedro Cabrita Reis, a propósito da sua exposição de pintura na Galeria Fernando Santos, no Porto. Cinco ou seis parágrafos sobre coisas mais ou menos avulsas de que gosta, que colecciona ou que o inspiram na sua arte. Declarou que o vinho é um dos seus grandes prazeres. Gostei particularmente da maneira expressiva e muito plástica como lembrou o essencial: "Há uma coisa muito bonita no vinho. Por muito evoluídas que sejam hoje as tecnologias relacionadas com a produção, aquilo resume-se a apanhar uma coisa da terra, espremê-la e pô-la dentro de uma garrafa. É de uma beleza extraordinária podermos beber algo que é uma mistura de terra e de sol. Para mim, tem o seu quê de mágico e de ritual. É como se uma vez mais verificássemos e confirmássemos uma humanidade que não acaba nunca."

Assim como me fascina a expressão poética e plástica de escritores e artistas, também me fere a ausência de capacidade de expressão dos que comunicam aquilo que fazem ou criam. Joe Berardo tem-se revelado um monumento de dislexias e um homem de demasiadas palavras. Tanto excesso perturba e cria ainda mais ruído. Não esclarece, portanto. Nem sequer traz luz às sombras que ele próprio diz querer e poder iluminar. Primeiro, porque nem tudo o que diz se percebe. Usa uma mistura permanente de português da Madeira com americano arrastado onde as palavras saem frequentemente
sem sentido e algumas frases ficam fatalmente sem nexo. O seu discurso torrencial enerva e confunde as questões. Antigamente, quando era um homem de negócios discreto, a coisa passava. Agora que decidiu falar sempre e muito, pergunto-me por que é que não faz um curso de português corrente que lhe permita não estar sempre a recorrer a expressões do tipo "eu refuso" (de I refuse) ou "eu suporto" (de I support) e por que é que não contrata especialistas em media training (usando a terminologia americana de que tanto gosta) que o ajudem a clarificar o raciocínio e a ter mais eficácia naquilo que diz. Depois de ver os Prós e Contras desta semana é impossível não fazer a pergunta.