Público - 30 Nov 06

A escola sem os pais

Manuel Carvalho

 

Os pais, ou melhor, uma boa maioria dos pais, são hoje os principais responsáveis pelo desastre educativo que nos envergonha e nos tolda o futuro


Na semana passada, uma frase proferida por uma dirigente da Federação Regional de Associação de Pais dos distritos do Porto e de Vila Real revelou com crueldade o estado de sítio da educação. Com centenas de adolescentes a protestar em frente às escolas contra as aulas de substituição, o que disse Rosa Novo, secretária da federação? Pois que os alunos têm razão, que "as aulas de substituição não deviam ser obrigatórias", que os jovens do secundário têm idade suficiente para decidir o que fazer nos "furos". A declaração, diluída no coro de exigências, queixumes e protestos que, justa e injustamente, se continuam a lançar aos professores é em si própria um programa. Mostra-nos até que ponto grande parte da sociedade portuguesa está aí para minar e comprometer toda e qualquer reforma de fundo na educação.
Como é sabido, os méritos das aulas de substituição não se podem, nem devem procurar exclusivamente no domínio da aprendizagem. Mantendo a totalidade dos tempos lectivos ocupada, a escola promove hábitos de disciplina e de trabalho e evita, em casos extremos, a propagação de comportamentos de risco. Por isso é que sempre houve professores a defender a ocupação integral dos jovens na escola, por isso é que a ministra da Educação fez das aulas de substituição uma das suas principais bandeiras políticas. Esperava-se, em sequência, que os pais fossem os principais entusiastas da iniciativa. Mas, pela voz de Rosa Novo, ficámos a saber que não é bem assim.
O exemplo pode ser redutor - a maioria dos pais deve sentir-se confortável por saber que os seus filhos estão, de facto, na escola e não em qualquer lugar -, mas é suficiente para se perceber até que ponto o espírito de resistência a tudo o que implique esforço, disciplina e rigor continua vivo. Entre a reivindicação de mais e melhores condições para o exercício das aulas de substituição e a vontade dos adolescentes em lutar pelas delícias dos "furos", os pais, ou melhor, alguns pais, preferem a segunda via. Os pais, ou melhor, uma boa maioria dos pais, são hoje os principais responsáveis pelo desastre educativo que nos envergonha e nos tolda o futuro. Não acompanham os filhos, não participam no quotidiano e olham para escola como um edifício simpático, porque é onde podem depositar os filhos. Para muitos, o sucesso educativo é tão ou menos relevante que a vitória do clube do coração no fim-de-semana futebolístico.
Quando todas as responsabilidades pelo fracasso se dirigem para as escolas, era bom que se reconhecesse que os professores nada podem fazer, se os flancos da sua actividade não estiverem devidamente protegidos pelos pais. Era, por isso, bom que, juntamente com o novo Estatuto da Carreira Docente, o Governo pudesse aprovar um estatuto da carreira de pais. Não pode, como é óbvio, mas podia e devia eleger o tema como uma das suas principais mensagens políticas. O alheamento dos pais em relação ao desempenho educativo é um problema grave que exige outras respostas e mais energia. Como o comprovam as entrelinhas do discurso de Rosa Novo, o estatuto dos professores é apenas uma pequena parcela do problema da educação.