Público - 29 Nov 06

Ai os outros!...

Joaquim Fidalgo Crer para Ver

 

Se há inquérito de opinião que dá um engraçado retrato cá da nossa gente, dos portugueses, é um sobre pontualidade que há dias veio nos jornais.
Na sua esmagadora maioria (quase 90 por cento), os inquiridos afirmavam que eram habitualmente pontuais. Mas, ao mesmo tempo, afirmavam também que um dos mais generalizados defeitos dos portugueses era não serem pontuais.
Como diria o saudoso Guterres, basta fazer as contas, não é?... Se 90 por cento dos portugueses garantem ser pontuais, ficam a sobrar apenas 10 por cento que não o são. Ora 10 por cento não é uma grande percentagem - é até uma minoria. Se, por hipótese, 10 por cento das pessoas de um país são louras, nunca se dirá que aquele povo "é louro". Da mesma maneira, se só 10 por cento dos portugueses tendem a não cumprir horários, é injusto proclamar que "os portugueses não são pontuais". E, no entanto, todos estaremos de acordo em que a nossa gente, de facto, não prima pela pontualidade. Em que ficamos, então?...
Cá para mim, ficamos nisto: os tais 90 por cento de inquiridos que dizem ser habitualmente pontuais são mas é uns grandes mentirosos. Porque se eles fossem mesmo pontuais, como dizem que são, nunca "os portugueses" poderiam ser acusados de pouco pontuais. Porque os portugueses são eles, precisamente eles: 90 por cento de portugueses são quase todos os portugueses...
O problema é que "os portugueses" são sempre "os outros". Quando alguém diz que "os portugueses não são pontuais", esse alguém está a excluir-se do universo maioritário dos portugueses: esse alguém jura que é pontual, mas "os outros" é que não são. E se toda a gente diz de si própria que é muito pontual mas "os outros" não são, onde é que vamos arranjar "outros" que cheguem para nos dar a fama de atrasados? Se eu digo que "o outro", enquanto português típico, é assim e assado, esse outro dirá de mim exactamente o que eu digo dele, porque para ele eu passo a ser "o outro". E todos nós somos dois: somos "eu" (para nós) e somos "o outro" (para os outros). Sendo que, enquanto "eu", juramos ser pontualíssimos. Mas, enquanto "outro", dirão de nós, porventura com razão, que somos sempre uns atrasados.
Daí que se imponha esta fantástica conclusão: os portugueses, se considerados um conjunto de "eus", são muito pontuais e ai de quem os acuse do contrário; mas os portugueses, se considerados um conjunto de "outros", são o que há de menos pontual no mundo e nunca se pode contar com eles para cumprir horários seja no que for.
Confuso?... Nem por isso. O segredo está sempre nos "outros". Os "outros" é que estragam isto tudo. Os "outros" é que se atrasam - eu não. Os "outros" é que põem papéis para o chão - eu não. Os "outros" é que estacionam em locais proibidos - eu não. Os "outros" é que dão o golpe na fila do cinema - eu não. Os "outros" é que...
Ora o grande problema é que isto é um país de "outros". Se fossem todos como "eu"... Mas não. Aliás, tirando-me a mim próprio, todos os outros são "outros"... Assim, como é que isto pode evoluir?... Jornalista