Público - 19 Nov 06

Será k a lguagem ds testes tá a mudar?

Bárbara Wong

Os alunos são cada vez mais escravos do telemóvel. Não só do aparelho como do código que utilizam para enviar mensagens escritas. Timidamente, nos cadernos, nos trabalhos escolares e até nas provas começam a aparecer os "k" e os "x". Não muito, porque contam como erros ortográficos e os estudantes são penalizados. Na Nova Zelândia já é permitido escrever assim nos exames do secundário. Prenúncio do futuro ou "um disparate"?

Marlene pousa os livros e o dossier no parapeito de uma das janelas que dão para o pátio interior da Escola Secundária de Gil Vicente, em Lisboa. Abre o dossier e começa a folhear rapidamente as folhas, muito limpinhas, com as lições organizadas, até que pára numa de rascunho, escrita a lápis. Aponta satisfeita: em vez de "cheia", lê-se "xeia".
"Krs ir ao cinema?", "Goxt mt ti", "Curti akela cena" são algumas das expressões que adolescentes e jovens escrevem furiosamente nos telemóveis e na Internet. Mas até que ponto essa linguagem é transposta para outras situações de escrita, como os cadernos diários, os trabalhos ou mesmo os exames nacionais? Será que a linguagem dos testes está a mudar? Será k a lguagem ds testes tá a mudar?
Já há pelo menos um país, a Nova Zelândia, que decidiu autorizar o uso destas abreviaturas nos exames do ensino secundário (ver caixa).
João Costa, presidente da Associação Portuguesa de Linguística, não hesita: a medida neozelandesa "é um absurdo". "Esse é um código legítimo, mas que não deve ser adequado ao contexto formal de escrita", afirma.
Em Portugal, dizem vários professores, os alunos do 12.º ano ainda não caem na tentação de transpor para os exames essa linguagem, até porque podem perder pelo menos dois em 20 valores. Mais: por cada erro de sintaxe perdem dois pontos, um por cada erro ortográfico e 0,5 pelos de acentuação ou mau uso de letra maiúscula. Feitas as contas, "se em vez de 14 tiverem 12 valores, vão pensar duas vezes antes de usar abreviaturas", garante uma professora correctora, de Lisboa.
Já os miúdos do 9.º ano revelam ter menos cuidado, aponta Ana de Sousa, professora do ensino básico, em Odivelas, que já corrigiu exames nacionais. Também no exame de Português do 9.º ano os alunos podem perder cerca de cinco por cento se cometerem erros.
Mas se nos exames não se revelam os "mt" para "muito", o "td" para "tudo" ou o "k" para "que", já nos testes, nos trabalhos escritos e nos cadernos são mais comuns, confirmam alguns professores de Português, História e Geografia ouvidos pelo PÚBLICO.

Corrigir antes de entregar
Bonita, de blusão branco curto e calças de ganga estreitas, Marlene Santos, 16 anos, aluna do 12.º ano na Gil Vicente, em Lisboa, conta que às vezes não resiste às abreviaturas quando escreve mais rapidamente. "Uso os "x", em vez dos "s", "ç" ou "ch"." Já aconteceu nos testes. "Mas antes de entregar a prova volto sempre atrás e corrijo, porque tudo conta para nota."
O "x" também aparece nos cadernos de Ricardo Oliveira, 16 anos e no 9.º ano da mesma escola. "Estou habituado e quando é ditado a Português acabo por escrever "x", mas depois uso o corrector", explica. "Se se usarem abreviaturas nos testes, conta como um erro de ortografia e os professores descontam", sabe Patrícia Lajas, de 15 anos, no 9.º ano, que não usa sequer abreviaturas nas mensagens que manda por telemóvel.
"Há uma ou outra distracção. Como professora de Português, não ignoro e assinalo como se fosse um erro ortográfico; depois os alunos têm de corrigir entre cinco a dez vezes", conta Ana de Sousa, que dá aulas na EB 2,3 António Gedeão, em Odivelas.
Na Gil Vicente, em Lisboa, duas professoras do secundário, uma de Português e outra de Geografia, dizem que "volta e meia" aparece uma ou outra abreviatura, mesmo em trabalhos escritos. "Os alunos são um pouco escravos do telemóvel. Às vezes, nos testes, aquilo sai-lhes, é espontâneo e nem dão conta. É um hábito já adquirido", diz a docente de Geografia, que pede para não ser identificada.
Vera Santos, Sara Gonçalves e Paulo Proença, todos com 16 anos e no 11.º ano da mesma escola, dizem não usar abreviaturas nos cadernos porque "os professores não querem". "Às vezes acontece, principalmente nas aulas de Física, porque o professor fala muito depressa e não repete", comenta Vera, provocando o riso dos amigos, que confirmam fazer o mesmo.

Preservar a norma
Numa escola da Lourinhã, Pedro Damião lecciona Geografia no 3.º ciclo e nunca deu "pelo problema". "No ano passado, em nove turmas, apenas um aluno, que era viciado no SMS [Short Message Service] e no Messenger, usou uma expressão num teste. Imediatamente assinalei."
Essa é a função dos professores, defende o presidente da Associação Portuguesa de Linguística. "Ensinar a preservar a norma." Os docentes devem ter um "sólido conhecimento da língua para poder contrariar esta escrita imediatista", acrescenta. Quanto aos alunos, têm de perceber que "a tarefa da escrita é complexa, dá muito trabalho" e não se resume ao envio de mensagens.
João Costa, linguista e professor na Universidade Nova de Lisboa, não tem dúvidas de que os estudantes passam horas a ler e a escrever mensagens, mas essa é "uma leitura e escrita de baixa qualidade" - os docentes e os pais devem por isso "insistir muito para que escrevam no português correcto", insiste.
Sentada no átrio de entrada principal da Gil Vicente, com um ar sério, Regina Silva, 14 anos, 9.º ano, garante que não usa abreviaturas em nada do que escreve na escola. Para ela simplesmente não faz sentido utilizar a linguagem SMS nos cadernos porque ter uma caneta na mão é muito diferente de escrever no teclado do computador, onde se procura responder de imediato aos outros que estão em linha - explica por poucas palavras.
Este tipo de escrita codificada, que muitos pais e professores reconhecem não compreender, foi criada pelos mais jovens com o objectivo de poupar caracteres nas mensagens, para poupar tempo e dinheiro.