Diário de Notícias - 28 Nov 05

entrevista
António Nóvoa vice-reitor da Universidade de Lisboa
"A autoridade não se impõe, conquista-se"
O professor da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da UL defende a ideia de um "contrato", com direitos e deveres mútuos, entre professores, pais e alunos

P. S. T.

 

A indisciplina e a violência são um problema das escolas ou um reflexo da sociedade de hoje?

Indisciplina e violência são duas realidades e dois conceitos muito distintos. O processo educativo implica um espaço de conflito e de transgressão. O confronto faz parte do crescimento e da conquista de um lugar como pessoa. Esta "indisciplina" é bem conhecida dos professores (...) Totalmente diferente é a situação de violência que começa a existir em muitas escolas. Esta, sim, é uma realidade nova com a qual não sabemos lidar.

Acredita que novas medidas repressivas, como as multas recém-adoptadas no Reino Unido para os pais de alunos violentos, podem ter efeitos benéficos?

A sociedade impõe às crianças a frequência da escola, por um tempo cada vez mais longo. Mas, para muitas crianças e para muitas famílias, a escola não tem qualquer sentido. Nem sentido pessoal, nem sentido social. As promessas da democratização ficaram por cumprir e a escola deixou de ser, na maioria dos casos, um factor de mobilidade social. Nem sequer conseguimos concretizar o objectivo mais óbvio assegurar que todos os alunos, cada um à sua medida, tenham verdadeiramente sucesso. Não se pode obrigar um jovem a estar na escola, condenando-o a um destino de insucesso. Impõe-se recuperar a ideia de um "contrato", com direitos e deveres de parte a parte, a celebrar com os alunos e as famílias. É melhor deixar as multas para outros sectores ?

Nesta matéria, tende a haver uma responsabilização mútua entre alguns professores, pais e os alunos. Quem tem razão?

É preciso conhecer a realidade, evitar as falsas evidências. Vários estudos têm mostrado que os pais com mais dificuldade para lidarem com situações de indisciplina, para se fazerem respeitar, são também aqueles que mais acusações dirigem aos professores. Por outro lado, os professores mais frágeis tendem a desculpar-se, muito facilmente, com os ambientes familiares perniciosos? O caminho das acusações mútuas conduz-nos a um beco sem saída.

É justa a queixa dos professores de que muitas vezes lhes é exigido que façam sozinhos o papel de educadores, substituindo-se aos pais em algumas tarefas que lhes competiam?

Sem dúvida. Historicamente, a escola foi procurando compensar a fragilidade das famílias, e da sociedade, assumindo um número cada vez maior de missões. Tudo, mas mesmo tudo, foi passando para dentro das escolas. Como se fosse possível resolver todos os problemas das crianças e dos jovens no espaço escolar. Não é. Importa, por isso, recentrar a escola nas tarefas da aprendizagem e, ao mesmo tempo, reforçar um espaço público no qual as famílias e as comunidades assumam as suas próprias responsabilidades.

Talvez pelo número de estudantes que as escolas e os professores têm a seu cargo, parece haver uma tendência para segregar os casos de indisciplina. Ao punir repetidamente alunos problemáticos, que acabam muitas vezes em escolas que servem de "reservatório" para os "casos perdidos", não se está a criar um ciclo vicioso do qual estes jovens já não conseguem sair?

Esse é um dos dramas principais das nossas escolas. Em educação, a autoridade não se impõe, conquista-se. Um autor francês, Philippe Meirieu, afirma que a escola deve ser menos "comunidade" e mais "sociedade". Uma comunidade caracteriza-se pela escolha livre dos seus membros e por laços essencialmente afectivos. Uma sociedade define-se pela existência de regras, aceites por todos, que permitem trabalhar e viver em conjunto com uma determinada finalidade. A melhor tradição pedagógica, por exemplo, de Freinet, construiu-se a partir da ideia de escola como "sociedade". Não há "casos perdidos", nem "alunos problemáticos". Há regras de vida colectiva, discutidas por todos, que devem funcionar como um elemento de integração e não de exclusão.

Porque é que, às vezes lidando com as mesmas turmas, há professores que conseguem mais facilmente o respeito dos seus alunos do que outros?

Esse é um dos grandes mistérios da educação. Os melhores professores conseguem manter uma relação equilibrada com os alunos. Há uma sensação de conforto e de naturalidade na acção pedagógica. Eles sabem que a autoridade não pode ser exercida de forma arbitrária. É preciso que as regras tenham sentido, que sejam impostas com justiça e equidade. Mas eles evitam, também, cair no extremo oposto o poder baseado na pura sedução ou no carisma pessoal (...) É também muito interessante ouvir o que os alunos têm para nos dizer.

WB00789_.gif (161 bytes)