Público - 30 Mar 08

 

Trinta anos de eduquês: origem e instrumentos do mal
Guilherme Valente

 

Professores a elegerem os colegas que terão de os dirigir e avaliar: onde já se viu ou funcionou tal modelo?

 

"O cérebro é uma coisa maravilhosa.
Era bom que todas as pessoas tivessem um."
Anónimo

 

1. Disse-se que a aluna do Carolina Michaëlis iria ser responsabilizada judicialmente (em Espanha, um juiz acaba de aplicar uma multa pesadíssima aos pais de um aluno que insultou uma professora). Ocultaram e relativizaram enquanto puderam os resultados dos exames com que não conseguiram acabar (arremedo de exames, aliás). Ocultariam e relativizariam enquanto pudessem, usando o natural constrangimento dos docentes atingidos, a indisciplina (que chegaram quase a elogiar), a violência, o regresso à barbárie que se está há trinta anos a promover. Bem-vindo, pois, de fora, o alerta às consciências do procurador-geral da República! Mas é preciso ter presente a origem do mal e a responsabilidade pela situação nas escolas e nas ruas: os Governos, os sucessivos ministérios, a Assembleia, os Presidentes da República, todos nós, afinal, a insensatez inimaginável, o conformismo, o assobiar para o lado, o arranjismo e oportunismo de todos estes anos.

 

2. Dos instrumentos de disseminação do flagelo, um dos mais perversos e eficazes é, seguramente, o modelo de gestão das escolas. Modelo "democrático", dizia mesmo muito boa gente, confundindo as coisas... É que a escolha da direcção de uma escola deve ser um processo de outra natureza: selecção de mérito num universo geral, e não legítima opção partidária e doutrinária no registo de uma eleição política. A escola deve ser uma meritocracia.

 

A confusão dos dois planos, a facilidade e a unanimidade como algo tão absurdo e desastroso foi defendido ou aceite dizem muito sobre o estado mental, sobre a passividade de todos nós, o grau de preconceito e complexos das elites - restos de "ismos", só na aparência opostos, acantonados e activos no sistema educativo e mal arrumados no nosso inconsciente.

 

Conselhos directivos integrados por professores eleitos pelos colegas? A solução perfeita para os sucessivos ministérios imporem o flagelo às escolas, sem que ninguém - sobretudo a nomenclatura e os ministros - fosse responsabilizado por nada (este é um dos objectivos do manhoso modelo de avaliação dos professores agora imposto, só idiota na aparência). Professores a elegerem, muito convenientemente, os colegas que terão de os dirigir, avaliar o seu trabalho, assegurar o cumprimento de objectivos e metas: onde já se viu ou funcionou tal modelo? Conhecem-se a teoria e os resultados. E não é esse o modelo da nossa democracia. O sistema educativo tem de ser uma rede de competência, dedicação e responsabilidade, que cumpre ao Governo avaliar e pela qual tem de responder ao país.

 

Como é escolhido, por exemplo, o presidente da Universidade de Cornell, uma das dez melhores do mundo? Por uma task force nomeada por um conselho de curadores com mais de cem membros, dos quais só dois são professores e só dois são alunos, eleitos pelos colegas. A maior parte é composta por ex-alunos, eleitos por todos os ex-alunos, estejam onde estiverem, seja qual for a sua nacionalidade.

 

As escolas precisam de um director responsabilizável, uma direcção com isenção e autoridade, sem constrangimento de afinidades ou dependências de eleição, pessoais, partidárias ou corporativas. Um director provadamente capaz de gerir com rigor os recursos da escola, de impor a disciplina e a autoridade devida ao professor, de acompanhar e apoiar o trabalho dos docentes, escolhido pela sua competência e idoneidade. Um director que responda perante quem o nomeou, para que este possa responder perante o país pela qualidade do sistema educativo. Escolhido, naturalmente, com a intervenção dos participantes no quadro de uma real, responsável e avaliável autonomia das escolas, e apoiado, evidentemente, por estruturas adequadas.

 

3. A escola do eduquês continuou a ser tão ideológica e praticamente tão amarradamente comandada pelo ministério como era a escola salazarista. Os conselhos directivos, intimidados, convertidos ou instalados na e pela comodidade do facilitismo, quase sempre tão docilmente obedientes como eram a generalidade dos reitores do Estado Novo, escolhidos entre os considerados fiéis ao chefe. Ontem, pretendia-se doutrinar e seleccionar as elites do regime execrável, mas havia quem resistisse. Hoje, a imposição do hipócrita delírio igualitarista desmotiva o mérito e a exigência, adormece a vontade e a ambição, promove a cretinização geral, condena à exclusão os mais desfavorecidos... sem resistência que se veja. Querem mais provas gritantes da natureza desse modelo de gestão, uma imagem reveladora do reino do eduquês? Professores que presidem ou integram, eleitos pelos colegas, há mais de 20 anos as direcções das escolas por onde passaram. Com que resultados, conveniências e atitude? Avaliações...
Basta! Editor