Público - 22 Mar 08

 

Alunos hoje exigem novas competências dos professores?
Clara Viana

 

É uma das imagens de marca do país: afirma-se muito, questiona-se pouco. Ontem, João Amado, psicólogo, professor da Faculdade de Psicologia e Ciências de Educação de Lisboa, que tem trabalhado sobre a indisciplina nas escolas, confirmou que isso estava de novo a acontecer a propósito do incidente na escola Carolina Michaelis, no Porto.

 

Ele voltou a estranhar. Algumas questões que lhe surgiram quando foi confrontado com as imagens nos telejornais de quinta-feira: "Em que medida é que aquela professora tem preparação para dar aulas? Haverá um trabalho conjunto naquela escola? Quantos pais aproveitaram esta circunstância para dialogar com os filhos?"

 

Numa estação de comboio, o psicólogo ouviu um diálogo entre avós e dois netos, com idades por volta dos 10 anos. A avó interrogava-se por que é que os outros alunos não tinham feito nada para dissipar o incidente. "Porque têm medo dos outros", respondeu o neto. A coacção exerce-se a vários níveis. "Há muito mau clima nas escolas, nas turmas", constata João Amado.

 

A maior parte dos professores lida com situações desse tipo apenas com a sua intuição", admite Mário Nogueira, presidente da Federação Nacional de Professores. O dirigente sindical admite que a oferta é mínima ao nível da formação em questões relacionadas com a indisciplina e a violência. E acrescenta: "Nas acções de formação contínua a que os professores vão ter acesso a partir do próximo ano, que contarão para avaliação de desempenho, se um professor escolher aquela temática valerá zero do ponto de vista da carreira.

 

Mário Machaqueiro, da nova Associação de Professores em Defesa do Ensino, docente há mais de 20 anos, queixa-se dos "treinadores de bancada": "Não fazem ideia da realidade que se vive hoje nas escolas." Mas Machaqueiro não acha que os docentes devam ter uma preparação específica para lidar com a crescente indisciplina nas escolas: "Os professores têm formação para lidar com crianças e jovens que entram na escola já com o mínimo de regras de civismo adquiridas", afirma, sublinhando que a transmissão destas competências cabe, em primeiro lugar, às famílias. À escola cabe, em primeiro lugar, "transmitir conhecimentos". Um problema identificado: esta função tende cada vez mais a ser desvalorizada. "Muitos dos jovens não estão inseridos numa cultura familiar que valorize a exigência e o saber."

 

Fingem não ver

 

Anabela Moronho, professora há 22 anos, está indignada. Com o Ministério da Educação, com as famílias, também com alguns colegas. "Já me passaram muitas gerações pelas mãos e está cada vez pior. Em termos comportamentais, mas também de abandono afectivo." Principais responsáveis, segundo ela: os pais. "Mas existem também muitas pessoas que não estão vocacionadas para o ensino. Há professores que fingem que não vêem o que se passa, mesmo que lhes estejam a atirar pedaços de giz ou a chamar nomes."

 

"Há alunos e alunos e pais que são maus exemplos. Mas isso não desresponsabiliza a escola, que tem de estar preparada para esta situação de diversidade", alerta João Amado.

 

O psicólogo recusa, contudo, que a agilização dos procedimentos disciplinares, alegadamente contemplada no novo Estatuto do Aluno, venha resolver alguma coisa: "A autoridade que os alunos têm de reconhecer no professor não passa pelo que está escrito nos regulamentos, mas sim pelo modo como se exerce a docência."

 

Nas escolas, a violência não se exerce só para um lado: "O respeito pelos professores é fundamental, mas os alunos também têm que ser respeitados", adverte o psicólogo, sublinhando que não poucas vezes "os procedimentos disciplinares são motivo para grandes injustiças".

 

Noronha, Machaqueiro e Anabela Moronho coincidem na acusação: "Todo o discurso do político, do Ministério da Educação, tem sido conduzido para desvalorizar a autoridade dos professores perante a opinião pública."