Público - 19 Mar 08

 

Revolução no ensino da Matemática nos Estados Unidos
José Manuel Fernandes

 

Uma sugestão sobre o que a ministra Maria de Lurdes Rodrigues devia levar para ler neste intervalo da Páscoa. E os professores também...

 

Em Setembro de 2004, estava eu de férias, ia-me dando um colapso quando olhei para a manchete do PÚBLICO (honestamente, devo confessar que não foi a primeira nem a última vez, mesmo sem estar de férias). Cito de memória o título: "Sócrates ganha PS com mais de dois terços dos votos"; e o texto: "Sócrates deverá ter recolhido mais de 75 por cento dos votos..."

 

Sucede que dois terços corresponde a 66,6 por cento, enquanto 75 por cento é igual a três quartos. Esta evidência não chocou muitos dos meus colegas quando, logo na segunda-feira seguinte, regressei ao trabalho. A maioria não tinha dado pelo erro. De resto, julgo que nem um só leitor protestou. E isso deixou-me desesperado: não ter a mínima ideia do valor real de uma fracção, ou de uma percentagem, afligiu-me. Mas a verdade é que pouco podia fazer a não ser recomendar que se utilizassem títulos mais fáceis de entender. Como, por exemplo, "Mais de três em cada quatro militantes do PS escolheram Sócrates". Num país de tão dramática iliteracia aritmética (já nem falo de iliteracia matemática...), assim ao menos far-nos-íamos entender.

 

Conto este episódio porque ontem me chamaram a atenção para um documento que, espero, já deve estar entre os papéis que Maria de Lurdes Rodrigues meteu na mala para ir lendo nos seus (eventuais) tempos livres destas férias: o relatório sobre o ensino da Matemática que os melhores especialistas dos Estados Unidos entregaram, no passado dia 13, ao departamento federal de Educação. Lá, como cá, a iliteracia matemática é um problema nacional. Só que lá entregaram a um painel de excepcional qualidade (os documentos podem ser consultados em www.ed.gov) a análise do problema e a formulação de sugestões.

 

Os documentos são demasiado ricos para serem sintetizados neste espaço, mas devo dizer que não pude deixar de recordar o episódio atrás relatado quando, entre as conclusões síntese, li a seguinte frase: "O conhecimento de fracções é a mais importante competência que não se encontra devidamente desenvolvida entre os estudantes americanos" (e os jornalistas portugueses, acrescentaria eu).

 

Só que, para além de saberem lidar com fracções, e entenderem intuitivamente a que correspondem, o painel considerou fundamental que os estudantes americanos de Matemática deviam ter um conjunto de competências solidificadas de acordo com o grau de ensino, evitando regressar, e regressar, a conceitos básicos ano após ano; que a aritmética simples (como a malfadada tabuada) devia ser decorada, por forma a que existisse uma memória "viva" que os ajudasse a resolver problemas mais complexos; nenhum estudante deve terminar o oitavo ano sem ter aprendido os conceitos fundamentais da álgebra, saber resolver equações lineares e quadráticas, funções, polinómios, cálculo combinatório e de probabilidades.

 

Ou seja: acabe-se com as facilidades e regressemos ao essencial. De nada serve ter um computador ou uma máquina calculadora sofisticada à mão se não soubermos raciocinar. E nunca conseguiremos raciocinar se não compreendermos, sem um milésimo de segundo de hesitação, que dois terços e 75 por cento correspondem a valores diferentes.

 

Tive a sorte de, no que então se designava por "Liceu", ter tido uma excepcional professora de Matemática. Das exigentes, das que faziam testes difíceis, das que nunca facilitavam, porque também nunca deixava para trás quem não compreendia - e a quem pedia mais exercícios para que compreendessem.

 

É muito, mas mesmo muito importante que o presidente da associação de professores de Matemática dos Estados Unidos tenha integrado este painel. Essa associação, como já assinaláramos em Setembro de 2006, tinha produzido um documento em que mostrava ter compreendido os erros daquilo a que em Portugal chamamos habitualmente o "eduquês". Agora o seu presidente subscreve um documento que, se for adoptado - nos Estados Unidos apenas como recomendação, pois a educação não é competência do governo federal nem depende do Presidente -, representará uma revolução. E na direcção correcta.

 

Um dos melhores professores que tive quando frequentei a Faculdade de Ciências de Lisboa, o de Bioquímica, explicou um dia, numa das suas aulas, que a química do cérebro não é fundamentalmente diferente da química de um músculo: se não o exercitarmos não desenvolveremos as nossas capacidades de raciocínio e de compreensão. Hoje sabemos mais do que na época em que estudei, e sabemos que até há "exercícios" para o cérebro que ajudam a revitalizar sinapses nervosas que habitualmente não utilizamos no dia-a-dia (um deles é resolver problemas de Sudoku, outro é jogar xadrez). Isso significa que nunca uma máquina de calcular pode substituir a memorização da tabuada, como nunca andar de Ferrari em pequenino desenvolve aptidões de sprinter.

 

Só é pena que isto, ou relatórios como o que citámos, sejam ignorados enquanto se discute futilmente a dimensão do recuo-não recuo da ministra no processo da avaliação dos professores. Ainda estamos a discutir a forma da roda quando já devíamos estar a debater como vamos substituir o motor a explosão por motores mais ecológicos. E o pior é que somos capazes de acabar a preferir a máquina calculadora à tabuada, na ilusão de que podemos inventar uma roda melhor do que a roda...