Diário de Notícias - 5 Mar 07

 

As cinco gloriosas gerações

João César das Neves

 

 Temos de dizer que esta primeira geração do novo século começa a sua vida activa de forma bastante dura. A crise económica afecta a todos, mas mais a camada jovem que anda empatada no desemprego, na precariedade, nos biscates. Os sonhos de prosperidade fácil de há dez anos derrocaram na viragem do milénio. Os que então entraram no mercado de trabalho sofreram directamente esse amargo colapso das expectativas. Hoje anseiam por uma vida estável e culpam os seus pais e a revolução de Abril por se terem acomodado na apatia e no despesismo.

Curiosamente, esta situação é bastante semelhante à que essa geração anterior teve há 25 anos, quando foi a vez dela entrar na vida activa. A euforia dos meses revolucionários de 1974 perdeu-se rapidamente nas sucessivas crises económicas da terrível década seguinte. Nessa altura o desemprego foi muito maior, a crise doeu muito mais, motivando uma reacção que levou à prosperidade, após a entrada na Europa.

Hoje é difícil ainda lembrar a amargura e desânimo desses anos dolorosos. Sobretudo porque eles recordavam, inelutavelmente, a sorte da primeira geração do século XX, a pior de que há memória. "Democracia" em Portugal tinha até há pouco tempo o travo amargo das décadas perdidas de há cem anos. A decadência do liberalismo, as sucessivas loucuras da Primeira República, o envolvimento numa guerra que não era nossa, tudo isso foi a sorte da primeira geração de Novecentos, a geração heróica e poética mas estouvada e esbanjadora. Foi a "geração Fernando Pessoa", que compreendeu que não havia saída: "Ó Portugal, hoje és nevoeiro..."

A evidência dessa catástrofe fez com que os seus filhos mudassem decididamente de rumo. Seguiu-se-lhe assim a "geração Salazar". O horror pela confusão, desordem, regabofe deu ao País o anseio da segurança e estabilidade. Qualquer que fosse o preço. Os anos 30 e 40, em que o mundo se incinerou nas loucuras de monstros, teve em Portugal uma geração cordata e ordeira, pacata e provinciana, que deixou os sonhos de revolução em troca de uma vida mansa, apenas exaltada nas glórias longínquas do Império.

A geração seguinte, a terceira do século, reagiu a essa modorra. Era o tempo da televisão, do pop e rock and roll. Os jovens de então, avós dos de hoje, começaram bem nos anos 50, com o fomento, prosperidade, entrada na EFTA. Portugal deixava de estar "orgulhosamente só" para aderir ao desenvolvimento mundial do pós-guerra. Mas este início auspicioso havia de embater na glória anterior. O Império gerou uma guerra que, embora fosse nossa, não tinha saída, não tinha hipóteses, não tinha esperança. Assim, esta já não foi a geração de um poeta, como a dos avós, nem de um estadista financeiro, como a dos pais. Foi a geração de um comediante, a "geração Raul Solnado", onde até a guerra se tornou na "guerra do Solnado".

A revolução de Abril trouxe uma nova geração, a dos pais dos nossos jovens. Mas ela manteve a linha anterior, agora em democracia. A revolução não alterou a alma nacional e a inspiração continuou a ser dos cómicos. Só que a "geração Herman José" começou irreverente mas acabou acomodada a entrevistar personalidades em talk shows. Da revolução de Cunhal e Soares passou-se aos desafios de Cavaco, acabando no diálogo mole de Guterres. Os seus filhos sentem-se agora desamparados, enganados, abandonados. O seu nível de vida é muito superior ao dos pais e avós. A geração blog e SMS já não sabe o que era viver com taxa de isqueiro ou o papel selado. Mas isso não chega. A geração rap e heavy metal não acredita nas certezas dos seus pais. As promessas de Reagan e Fidel Castro, as reformas de Delors e Popper, os sonhos de Sartre e dos Beatles soam hoje a oco.

Ainda é cedo para classificar esta geração que, certamente, não se ficará pelo Gato Fedorento. Mas cabe-lhe a magna tarefa de, tal como os antepassados, transformar estes dolorosos inícios num surto de transformação e desenvolvimento, que confirme definitivamente Portugal no clube dos países ricos, a que já pertence.

Estas cinco gerações ficarão na História como as da magna transformação do nosso país. Com elas passámos da iluminação a petróleo à Internet, da caleche ao telemóvel. Todas, melhor ou pior, venceram terríveis ameaças, ultrapassaram obstáculos formidáveis. Todas tiveram razões de queixa da herança que receberam, mas foram grandes porque con- seguiram abrir novos caminhos num mundo cada vez mais exigente.