Público - 24 Mar 06

Já está: 18.º lugar

José Manuel Fernandes

Portugal sofre dos mesmos males, em pior, da Europa: não entende que ou se reforma ou empobrece

Aconteceu. Talvez mais cedo do que se esperava, mas aconteceu. Em 2005, Portugal foi ultrapassado pela República Checa em riqueza por habitante. Caiu para o 18.º lugar na ordenação do poder de compra por habitante entre os 25 membros da União Europeia. As previsões são que a tendência se mantenha pelo menos até 2007, isto é, que este e o próximo ano continuem a ser de empobrecimento relativo.
O que se está a passar era inevitável. Ou fizemos com que fosse inevitável. Desde que se apagou a euforia de 1998 que todos os que preocupam com o futuro têm repetido o mesmo: o nosso modelo económico baseado em mão-de-obra barata estava esgotado; o Estado não podia consumir uma parte tão substancial da riqueza; a nossa população continua mal formada e mal preparada para os desafios da economia global; as obras públicas e o consumo privado (com crescente endividamento das famílias) não seriam capazes de sustentar um crescimento saudável; e por aí adiante.
Sabia-se: ou mudávamos de vida ou a vida acabaria por se encarregar de nos tornar insustentável o imobilismo. Não mudámos de vida, pelo que só começámos - e mal começámos - a perceber que temos de mudar. E mudar muito mais do que neste momento estamos a fazer, apesar de todas as diferentes resistências corporativas.
O nosso mal é, no essencial, o mesmo em pior do de boa parte da União Europeia: incapacidade de reconhecer que não podemos sustentar o tipo de regalias de que hoje disfrutamos. Ou, para ser mais exacto, de que desfrutam os que estão dentro do "sistema", os que têm empregos, de preferência empregos públicos inamovíveis.
Patrick Diamond e Anthony Giddens, dois conselheiros de Tony Blair, escreviam anteontem em The Wall Street Journal que se os europeus só estão dispostos a aceitar reformas baseadas no princípio da justiça social, têm de entender que hoje justiça social "deve ser entendida como a garantia da igualdade de oportunidades e não como uma mera e generosa transferência de rendimentos". Os actuais modelos de Estado social não são capazes de enfrentar os desafios colocados pela demografia e pela necessidade de competir nos mercados globalizados, apenas garantem a protecção dos já estão dentro do "sistema" ao mesmo tempo que barram a entrada aos mais novos. Por isso há cada vez mais famílias de pensionistas com situações confortáveis e cada vez mais jovens casais a lutar pela sobrevivência. Pior: os níveis de pobreza infantil têm crescido na União Europeia, sobretudo em países como a Alemanha, a Itália e o Reino Unido.
Ao contrário da velha UE, a "nova" UE dos antigos países de Leste teve de passar pelo choque da mudança brutal de regime económico há década e meia. Empobreceu, perdeu a ilusão de segurança que lhe proporcionava o "socialismo real" e fez-se à vida, nuns casos melhor, noutros pior. Mas quem quer que tenha visitado qualquer desses países nos últimos anos percebeu que estes procuram abraçar o futuro com o mesmo entusiasmo, determinação e capacidade de sofrimento que, há 60 anos, permitiram aos países da "velha" UE reerguerem-se depois do desastre da guerra.
Portugal nem conheceu a destruição da guerra, nem teve de passar pela transição do comunismo para o capitalismo, antes foi beneficiando de "boleias" que nos ajudaram a vencer as crises graças a ajudas externas. Isso acabou, não se prevê que regresse e hoje estamos entregues a nós mesmos num continente cansado, amargo e avesso às reformas. Ainda precisamos de mais duches de água gelada como o que hoje faz a nossa manchete para mudar mesmo e depressa, deixando de arrastar os pés e rezingar atrás de quem quer mudar alguma coisa.

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