Público - 22 Mar 06

Quadrículas
Eduardo Prado Coelho

Um professor meu amigo, com muitos anos de ensino, fez-me chegar às mãos o seguinte documento do Ministério da Educação (suponho que dessa espécie em vias de proliferação que dá pelo nome de "pedadogos"). Estamos no ensino secundário, 12.ºano, nível de continuação do Francês. As designações já têm o seu quê de cabalístico, mas com boa vontade chega-se lá. Só sei que este texto deve ser devolvido ao Gave [Gabinete de Avaliação Educacional] (e parece-me grave eu não entender) com uma série de quadrículas a preencher sobre as provas. Entre as questões colocadas temos: o júri e os alunos ficaram sentados na sala de acordo com o esquema fornecido (o que nos impede de ficar de pé, desentorpecer as pernas e mudar os lugares); ou ainda: a escola e o júri tiveram acesso à prova da forma e dentro dos tempos previstos.
Não quero ter má vontade, mas a verdade é que poucas vezes tenho visto um espírito dirigista tão férreo. O universo torna-se kafkiano só com a preocupação em cumprir estes preceitos. Tudo aquilo que deveria ser criatividade, invenção, relação intuitiva com os alunos, compreensão dos outros desapareceu. Ficou uma bateria de instruções que ninguém de bom senso irá cumprir. Mas é preciso dar exemplos.
Leia-se o seguinte princípio: "O examinador-interlocutor deve utilizar o guião da prova, incluindo as folhas com imagens, e segui-lo sem introduzir alterações (poderá, em caso de necessidade do aluno, repetir algumas perguntas/expressões) e uma grelha de classificação." Observe-se o gosto perverso que existe em construir termos hifenizados, como "examinador-interlocutor" ou "perguntas/expressões". Para quê? O que resulta daqui é a tendência para falar um "sociologês" que se avalia por expressões como "grelha de classificação". Não há como um sociólogo/pedagogo para se entusiasmar com uma boa grelha.
Como falar espontaneamente com os alunos? Eis os temas: "Moments de rupture et de construcion de la démocratie. Droits de l"Homme: évènements du XX ème siècle; nouvel ordre mondial. Mondialisation - uniformité /diversité." Como se vê, questões que mesmo os alunos do superior terão dificuldades em abordar.
Há depois a questão dos tempos. As instruções tornam-se hilariantes. A conversa dirigida deverá dar aos dois examinandos três minutos. É um pouco estilo Rosa Mota. E o diálogo deverá iniciar-se com uma pergunta do tipo: "Bonjour... pouvez-bous vous présenter, parler de vous?" Em três minutos, para dois examinandos, não há nada de mais fácil. Depois, os examinandos devem mostrar que sabem exprimir o seu ponto de vista ao falarem sobre estes temas em dois minutos com mais dois de preparação. Em todas as circunstâncias o examinador terá de estar de relógio em punho. A seguir o aluno deve mostrar que é capaz de realizar uma tarefa. Tem para isso dois minutos de preparação, três minutos para as respectivas intervenções e um minuto para a colocação de questões.
Em relação à conversa dirigida surgem questões como: "Explique as razões pelas quais não tem contactos com vizinhos estrangeiros. Por que é que na escola também não os contacta? Será que eles são simpáticos, conseguirão ser bons alunos, já o tentaram convencer a fazer uma viagem no país deles? E assim por diante. Só temos três minutos para cada examinando.
Que estranho universo é este? Mas seja rápido. Tem dois minutos para ler esta crónica e 30 para o jornal todo. Trinta e dois em caso de engarrafamento. Professor universitário

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