Expresso - 18 Mar 06

Mais horas na escola e piores resultados

O que torna as escolas portuguesas piores que as finlandesas, se passamos mais tempo nas aulas?

OS ALUNOS portugueses passam mais tempo na escola e têm mais disciplinas do que os finlandeses. Mas, enquanto os primeiros estão nos últimos lugares das avaliações internacionais da OCDE, os finlandeses são apontados como o caso a seguir.

Na Finlândia, as crianças entram para o 1º ano quando têm 7 anos e até ao fim da escolaridade obrigatória têm tudo gratuito: o ensino, os manuais e os materiais escolares, uma refeição quente diária e o transporte, quando a escola fica a mais de cinco quilómetros. Quando chegam ao primeiro ano (a pré-primária é facultativa) já levam consigo o gosto por histórias e pela leitura, transmitido pelos pais.

Desde muito cedo familiarizam-se com o computador e a Internet. O ênfase do currículo é posto nas disciplinas nucleares: a língua materna, a matemática e as ciências. A experimentação começa logo nos primeiros anos do ensino obrigatório na sequência de uma reforma introduzida em meados dos anos 90, que estabeleceu como meta a melhoria dos resultados às disciplinas de matemática e de ciências.

Os professores, uma das profissões mais respeitadas na Finlândia - só cerca de 15% dos candidatos conseguem ingressar no curso, cuja duração varia entre cinco e seis anos - receberam então uma formação suplementar. Os laboratórios foram modernizados e o ensino passou a ter um carácter mais experimental e prático.

Em Portugal, sucessivas reformas, quase tantas quantos os ministros que tiveram a pasta da Educação, não conseguiram inverter os resultados internos e internacionais dos nossos jovens. No ano passado, 70% dos alunos do 9º tiveram negativa a matemática e nas conclusões do PISA 2003 (relatório internacional que avalia as competências educativas na OCDE), Portugal ficou nos últimos lugares.

Algumas medidas da actual equipa da Educação têm sido bem recebidas nos círculos ligados a este sector porque, dizem, podem trazer algumas mudanças nos desempenhos. Os professores do 1º ciclo estão a receber formação suplementar a matemática e o ensino de inglês foi alargado a este nível de ensino.


Portugal adiado

. Com a divulgação do relatório assinado por Andreas Schleicher (ver caixa) - que mais uma vez apontou o caso finlandês como o modelo a seguir pelos restantes países, por ser precisamente na Educação que se joga a competitividade da economia da Europa - o EXPRESSO ouviu as opiniões de dois professores da Universidade de Coimbra, José Manuel Canavarro, especialista nesta questão, e Carlos Fiolhais, um físico que tem reflectido sobre o sistema de educação.

«A grande coesão territorial, o facto do ensino obrigatório estar dependente do poder local, a grande participação dos pais e autonomia - há uma margem para definir o currículo considerado mais adequado para os seus alunos - contribuem para estes resultados», afirma José Canavarro, secretário de Estado da Educação no último Governo do PSD/CDS.

Para Canavarro, os alunos portugueses deveriam dispersar-se por menos disciplinas e concentrar-se no português, matemática e ciências e passar menos tempo na escola. «No 3º ciclo temos 13 a 15 disciplinas, ou seja, um currículo às migalhas, que não faz sentido», refere.

Carlos Fiolhais realça a importância da formação dos professores na Finlândia, oferecida exclusivamente pelas universidades. «Em Portugal muitos professores do básico não estão familiarizados com a matemática e as actividades experimentais feitas nos seus cursos, ditos superiores, deixam muito a desejar». Outro aspecto que Portugal deveria imitar é a importância dada às línguas. «Os currículos também beneficiariam com mais matemática (onde se desvalorizou a memorização e a mecanização) e mais ciência», que tem de ser experimental.

Mas a transposição mecânica do modelo finlandês para Portugal «pode não funcionar», devido ao atraso escolar, social e cultural, alerta. «Teremos de transpirar e fazer o nosso próprio caminho», conclui.

Monica Contreras com Cristina Bernardo Silva
 
Relatório da OCDE pede à Europa uma reforma dos sistemas educativos

O EXEMPLAR sistema de ensino finlandês voltou esta semana a ser assunto de discussão na Europa quando, na segunda-feira, foi divulgado mais um estudo da OCDE, feito a pedido do Conselho de Lisboa, com sede em Bruxelas. O trabalho lança um alerta: a menos que se façam revoluções nos sistemas educativos - como aconteceu na Finlândia - a Europa ficará sem armas para combater as pujantes economias asiáticas, como a chinesa e a indiana. Recorde-se que na cimeira de 2000, realizada em Lisboa, os chefes de Estado e de Governo da UE estabeleceram como objectivo fazer da economia europeia a mais competititiva e dinâmica com base no conhecimento. «As economias modernas mais eficientes são aquelas que produzem mais informação e mais conhecimento, tornando-os acessíveis a um número cada vez maior de indivíduos e empresas», diz Andreas Schleicher, autor do estudo.

Schleicher explicou ao EXPRESSO ter-se baseado nos dois trabalhos que a OCDE produz com regularidade, o «Education at a Glance» e o Relatório Pisa, um trabalho que avalia as competências dos jovens de 15 anos dos países da OCDE nas áreas da leitura, ciências e matemática. Nos trabalhos mais recentes sobre avaliação de sistemas de educação, a Finlândia tem ocupado os lugares de topo. No entanto, na década de 80 as classificações obtidas internacionalmente pelos jovens finlandeses ficavam ligeiramente acima da média da OCDE. A explicação para a descolagem operada no país escandinavo prende-se com um conjunto de factores com origem numa ambiciosa reforma política que transferiu para os directores de escola e os professores a responsabilidade pelo sucesso dos alunos. Em vez de prescrições sobre a matéria a ministrar, os professores focam o ensino num conjunto de objectivos e competências que os seus alunos têm de adquirir ao longo dos anos.

Apesar de o documento enfatizar que todos os países da OCDE têm hoje mais licenciados que nos anos 60, as taxas de crescimento são muito variadas de país para país. Naquela década, a Coreia, então com um PIB idêntico ao do Afeganistão, era o 21ª país com mais licenciados no seio da OCDE. Hoje, a Coreia ocupa um invejável terceiro lugar, diz o relatório.

Na Europa, Portugal, Irlanda e Espanha surgem como países que têm conseguido melhorar o seu resultado relativo. Mas os países com as maiores economias, como França e Alemanha, estão com dificuldades em aumentar o número de universitários. O último está mesmo a regredir.

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