Portugal Diário- 29 Mai 08

 

Lojas de penhores: procura aumenta 50%

 

Já não é só ouro que colocam no prego, mas também relógios, obras de arte e até a roupa que trazem no corpo. Penhoram para comprarem comida, dizem comerciantes

 

A procura das casas de penhores em Lisboa e no Porto cresceu em quase 50 por cento em relação a 2007. Gerentes de lojas do sector nas duas cidades explicam que se deve ao aumento do custo de vida.

 

«Trazem de tudo. Ouro, prata, peças grandes e pequenas, chegam mesmo a trazer linhos e às vezes a própria roupa que trazem no corpo querem vender. É uma situação mesmo muito aflitiva», explicou à Lusa António Antunes, responsável pelos penhores da Joalharia Áurea, na Baixa de Lisboa, onde se verificou um aumento de procura na ordem dos 30 a 40 por cento, em relação a Maio de 2007.

 

Estamos mais pobres. Acha que ainda existe classe média?.

 

O recurso às casas de penhores - disse António Antunes - é feito por pessoas de todos as camadas sociais e acrescentou que as épocas de maior procura são as do regresso às aulas (Setembro/Outubro), a época de pagamento das contribuições autárquicas e depois das festas (Natal e Ano Novo).

 

As casas de penhores emprestam dinheiro a clientes que depositam determinado bem na loja. O penhorista avalia o objecto, empresta determinada quantia e indica que o artigo ficará na loja por um período de três meses, durante os quais o artigo pode ser recuperado. Depois desse tempo, a loja pode vender legalmente o objecto.

 

«Apesar de haver o desejo de recuperar o artigo, são cada vez menos as pessoas que o fazem», por impossibilidade financeira, explicou António Antunes.

 

João Fernandes, da ourivesaria Isauria Lda., também na baixa de Lisboa, descreve um cenário ainda pior: a procura dos seus serviços tem sido mais baixa este ano porque, considera, «as pessoas já nada têm para penhorar».

 

Para comer sopa e pagar salários

 

No Porto a situação verificada pela Lusa é semelhante. «Nos últimos tempos a procura desta casa aumentou em cerca de 50 por cento. E esta actividade funciona como um pêndulo da sociedade. Só demonstra como a sociedade está carecida e pobre», disse Aníbal Aníbal Ferreira, gerente de uma loja da União de Crédito Popular SA, no Porto.

 

Segundo Aníbal Ferreira as pessoas recorrem à loja de penhores tanto para conseguirem comer uma sopa como para pagarem os salários dos seus funcionários. Para este gerente, o facto de os bancos dificultarem os empréstimos leva a que as pessoas se dirijam à loja de penhores onde tudo «é mais simples e mais rápido».

 

Também Carlos Oliveira, funcionário da loja de penhores Prestus, evidencia o aumento "de mais de 40 por cento" do fluxo de pessoas na loja de penhores, revelando que «as pessoas estão cada vez mais endividadas e as prestações cada vez mais atrasadas».

 

«Já não é só o ouro ou a prata que as pessoas trazem. Cada vez mais pessoas aparecem a quererem penhorar relógios e até mesmo obras de arte de autores conhecidos», disse o funcionário. «Os motivos da procura são quase sempre os mesmos: pagamentos de salários em atraso e a compra da própria alimentação», acrescentou.

 

«Apesar de haver mais pessoas a recorrerem, a crise também nos afecta, porque as pessoas têm cada vez menos poder de compra e por isso não têm ouro, ou até mesmo prata, para penhorarem», disse.