Diário de Notícias - 29 Mai 08

 

Editorial

É tempo de parar com a festa do consumo
 

Todos os dias ficam por pagar três milhões de euros de dívidas e não bastam os alertas sucessivos do Banco de Portugal para pôr um travão a esta perigosa espiral de endividamento das famílias portuguesas.

 

O malparado no crédito ao consumo está a crescer ao ritmo alarmante de 40% ao ano, mas isso não assusta as financeiras, que em 2007 emprestaram 20% mais dinheiro que em 2006 para os portugueses comprarem computadores, automóveis, plasmas, mobílias ou férias do Brasil.

 

Indiferentes à elevada taxa de malparado e às 100 mil familias estranguladas pelo aumento dos juros que a qualquer momento poderão deixar de cumprir as suas obrigações financeiras, os bancos continuam alegremente a aumentar o crédito ao consumo.

 

Para onde quer que nos viremos, o cenário é desolador. O incumprimento no crédito à habitação está há seis meses a subir, o que é dramático pois três em cada quatro famílias habita em casa própria, na esmagadora maioria dos casos hipotecada ao banco.

 

Portugal é o segundo país mais endividado da Zona Euro e as famílias devem o equivalente a 125% do seu rendimento disponível, mas apesar disso continuam a consumir como se não houvesse amanhã. Apenas 13% dos portugueses declararam querer poupar este ano - a mais baixa percentagem da UE e bem abaixo da média europeia , que se situou nos 25%. Estamos a viver acima das nossas possibilidades e o Governo não pode ficar parado. Deve dizer aos portugueses que é tempo de acabar com a festa do consumo excessivo, e começar a voltar a poupar.

 

A enorme sofreguidão dos pequenos investidores fez com que a procura de acções da EDP Renováveis superasse já mais de 76 vezes a oferta. É estranho, na crise que Portugal atravessa. Ou nem tanto. No fundo, trata-se de uma busca de solução fácil, do lucro rápido. Toda esta euforia contrasta com os tempos de incerteza e pessimismo que sopram por toda a Europa e encontra ironicamente o seu maior fundamento na principal causa da crise: a impressionante galopada do petróleo.

 

Que os portugueses estejam atentos a isso, e percebam neste negócio boas perspectivas, também nos dá indicação positiva sobre a sua consciência de que o petróleo tem de diminuir a sua importância e as renováveis aumentá-la. Foi este raciocínio básico que levou a EDP a ousar fazer o maior IPO (oferta pública inicial de acções ) da Europa do ano de 2008, apesar do ambiente depressivo em que se encontra mergulhado o mercado de capitais. E foi o que levou 30 mil pequenos investidores a tornarem-se accionistas da EDP Renováveis, num momento em que o futuro próximo está envolto num denso manto de incerteza.

 

Para bem do País, espera-se que o dinheiro investido venha das poupanças - e de não de um inaceitável aumento do endividamento das famílias. Neste caso, mais uma vez incentivado pelos bancos, que dão crédito fácil para investimentos bolsistas.