Público - 05 Mai 08

 

Finlândia, Portugal ou como nunca aprendemos o essencial
José Manuel Fernandes

 

As estatísticas ajudam a perceber a realidade, mas não são a realidade. Por vezes até ajudam a distorcê-la em função de objectivos políticos de curto prazo

 

Uma leitora, professora em Setúbal, contava ontem nesta página, numa carta ao director, como era difícil lidar, no 10.º ano, com um aluno de Inglês que, desde o 5.º ano, passara sempre com negativas e nem sabia como se escreviam em inglês palavras tão simples como "mais" ou "o". O que a carta dessa professora mostrava era como uma coisa são as estatísticas, outra a realidade: as primeiras podem ser manipuladas, a segunda é o que é.

 

Na verdade, as estatísticas são retratos da realidade, não são a realidade. Podemos saber de cor milhares de estatísticas sobre o sistema de ensino, mas nunca entenderemos nada sem passar por uma sala de aula. Da mesma forma que podemos ter visto dezenas de reportagens e fotografias sobre obras de arte e locais maravilhosos, mas só os entenderemos quando estivermos lá, a vê-los, a senti-los. Podemos saber tudo, ou julgar que sabemos tudo sobre o Holocausto, por exemplo, mas haverá sempre, na nossa compreensão do horror, um antes e um depois de ter visitado Auschwitz, por exemplo. E se nunca tivermos entrado em Rabo de Peixe, nos Açores, dificilmente perceberemos por que há uma pobreza tão teimosa e tão difícil de erradicar.

 

Mais: um dos dramas dos Governos modernos é que dominam bem os números e as estatísticas, mas com frequência nada sabem sobre a vida comum dos seus concidadãos. José Pacheco Pereira contava-nos aqui, na sexta-feira, como era diferente passar, em campanha eleitoral, por um lar de idosos cujo director era "nosso amigo" ou arriscar ir distribuir comunicados para a saída de uma fábrica. Talvez valha a pena ir mais longe, e incluir no tirocínio de um candidato a deputado ou a ministro ter de acompanhar um dia a distribuição de comida pelos famintos de Lisboa num carro da Comunidade Justiça e Paz, passar umas tardes como voluntário num hospital, junto de doentes terminais, ou ir uma semana, incógnito, dar aulas numa dessas escolas problemáticas que às vezes são notícia nos telejornais e polarizam os famosos "directos" de que, ontem, aqui falava António Barreto.

 

A seguir olharão para as estatísticas com mais prudência, idealmente com mais humildade.

 

O discurso sobre as estatísticas tem surgido, nos últimos anos, quase sempre acompanhado por um discurso sobre o "milagre finlandês". De facto, basta consultarmos as estatísticas da Finlândia para corarmos de vergonha. Mas só isso.

 

Sobre o resto é necessário ver para além das estatísticas, especialmente quando elas se destinam a defender aquilo que desafia a intuição e a experiência portuguesa, como é o caso da defesa de que deve ser ainda mais difícil reter um aluno que não tem as competências mínimas para passar de ano, como se prepara para fazer o Ministério da Educação. Até porque se com menos "chumbos" Portugal terá melhores estatísticas de Educação, pode no final ficar com um pior sistema educativo e com cidadãos ainda pior preparados para o mundo moderno.

 

É por isso que vale a pena olhar para a Finlândia para perceber que os nossos problemas nunca poderão ser resolvidos com uma "receita finlandesa" pela razão simples de que quase tudo nos separa, histórica e culturalmente, da Finlândia.

 

Já se referiu nestas páginas o estudo do sociólogo Manuel Castells sobre a Finlândia - The Information Society and the Welfare State: The Finish Model - para concluir que nos "faltam todas, ou quase todas, as chaves do sucesso". Por muitas e variadas razões, que vão desde sermos um velho país e uma antiga potência colonial (a Finlândia só é independente há pouco mais de um século) ao facto de desconhecermos o sentido de praticar uma rigorosa ética protestante, ou de possuirmos uma velhíssima hierarquia social por contraponto com um país que nunca conheceu sequer uma nobreza nacional, ou ainda de sermos um dos países da Europa onde as crianças passam mais tempo em frente da televisão e a Finlândia o país do Mundo onde os pais dedicam mais tempo a ler histórias infantis aos seus filhos.

 

Por outras palavras, que as estatísticas até podem ilustrar: o nosso problema é, há séculos a esta parte, um problema de défice de "capital social", não de capital financeiro ou de capital humano. É por isso que ler Castells, mas também ler Fukuyama e Huntington, é capaz de ser mais útil do que ler, para mais de forma distorcida, todas as estatísticas de todos os estudos da OCDE. Porque em Educação, como em quase tudo o resto nas sociedades modernas, o conceito--chave é o de maximizar o "capital social".