Rádio Renascença - 27 Jun 08

 

Médico denuncia prática de abortos contraceptivos

 

A denúncia partiu do director do serviço de obstetrícia do Hospital de Guimarães, José Furtado: a interrupção voluntária da gravidez está a ser usada como método contraceptivo.

 

O médico diz à Renascença que, em menos de um ano, já foram realizadas 190 interrupções voluntárias de gravidez (IVG) no hospital.

 

Em 30% dos casos, as mulheres não voltam para a consulta de revisão, o que para José Furtado é prova do facilitismo criado, havendo mesmo situações de interrupções sucessivas.

 

Estes casos, mesmo pontuais, revelam uma atitude negligente das mulheres que recorrem à interrupção voluntária da gravidez.

 

Para José Furtado, é um dado preocupante que revela também falhas do Estado: “Acho que não é numa sociedade responsável, esta, onde se penaliza tudo o que é negligente, e que não se é capaz prevenir estas situações. As instâncias de saúde não são capazes de sensibilizar as mulheres para a contracepção e não arranjam mecanismos paralelos para facilitar uma contracepção adequada”.

 

Apesar das cerca de 13 mil interrupções voluntárias da gravidez já realizadas serem inferiores às 20 mil estimadas pelo Governo, José Furtado considera o número preocupante.

 

Bastonário tinha alertado

 

Confrontado com esta denúncia, o bastonário da Ordem dos Médicos diz não estar surpreendido, lembrando que alertou para este risco, durante a campanha do Referendo.

 

Pedro Nunes diz ser um risco transformar o aborto num método contraceptivo, cabendo ao Governo a responsabilidade de acautelar o problema.

 

O bastonário rejeita a possibilidade dos médicos virem a ser responsabilizados pela situação porque não foram os médicos a criar o problema.

 

Falência de uma cultura cívica

 

O antigo ministro da Saúde Paulo Mendo diz que estamos perante a falência de uma cultura cívica, defendendo a necessidade de se insistir na tentativa de dissuasão do aborto.

 

O antigo Ministro lamenta, por outro lado, que não se tenha apostado, em Portugal, em campanhas sérias de planeamento familiar.

 

Outras reacções

 

O coordenador nacional do Programa de Saúde Reprodutiva, Jorge Branco, admite a existência de casos pontuais de repetição de abortos, mas sublinha que a lei não estabelece limites ao número de interrupções de gravidez.

 

Já para o responsável pela Comissão Nacional da Pastoral da Saúde, Padre Vítor Feytor Pinto, esta realidade coloca-nos perante uma manifestação da irresponsabilidade com que se está a fazer cumprir a lei.

 

A Renascença tentou obter um comentário da actual ministra da Saúde a esta denúncia do director do serviço de obstetrícia do Hospital de Guimarães, mas Ana Jorge não se mostrou disponível para o efeito.