Jornal de Notícias - 24 Jun 08

 

O suave milagre (II)
Manuel António Pina

 

Recusando-se a reconhecer os milagres estatísticos do Ministério da Educação, há quem aponte o facilitismo das provas de aferição deste ano e veja aí a explicação do súbito sucesso dos alunos portugueses a Matemática.

 

Mas não houve sombra de facilitismo. Foi mesmo milagre. A prova de aferição do 6.º ano incluiria, por exemplo, uma questão praticamente igual à da do 1.º Ciclo (ex-4.ª classe) do ano passado.

 

Nada menos verdadeiro. Na prova do 1.º Ciclo de 2007, a questão era sobre a turma do Nuno; este ano foi sobre a turma do Ricardo. No ano passado, o pictograma era feito com "smiles", este ano foi com bolinhas.

 

Na prova do 1.º Ciclo de 2007 perguntava-se sobre alunos que aprendiam informática; na prova do 6.º ano de 2008 foi sobre alunos que aprendiam piano. No ano passado, no 1.º

 

Ciclo, para resolver o problema, bastava somar um "smile" e meio; agora, no 6.º ano, já era preciso somar três bolinhas e subtrair uma, o que é muito mais difícil.

 

Os críticos verão que, depois, no 9.º e no 12.º anos, já será preciso saber multiplicar, e até dividir! A epopeia educativa da Matemática é para continuar.