Público - 24 Jun 08

 

A menina do gás ou porque é que Portugal não vai a parte alguma
José Manuel Fernandes

 

Para aquecer o mesmo litro de água, recorrer à energia eléctrica representa, em média, que se emita o dobro de partículas de CO2 do que se se queimasse gás butano. Mas este é mais caro, o que é uma aberração ambiental

 

1.Lembram-se da "menina do gás", o modelo polaco que aqui há uns tempos se passeava pela publicidade e fazia trocar os olhos a muitos lusitanos? Quem pode ter esquecido, dirão. Mas sabem que a dita menina andava a promover um formato de botija que implicava pagar mais por cada quilo de gás butano? Pois é, num país onde poucos sabem fazer contas (e tudo indica que, no futuro, ainda menos saberão, mas já lá iremos), a menina do gás serviu às mil maravilhas para fazer passar um novo produto, por certo simpático para quem tem dores de costas, mas doloroso na carteira.

 

Mas o pior não é isso. Só adoptou a botija da menina quem quis. O mesmo não se pode dizer das centenas de milhares de agregados familiares que têm de recorrer ao gás de botija porque não têm gás canalizado, nem vivem em condomínios com depósitos de gás propano, nem têm água quente em casa fornecida pelos municípios, como sucede em muitas cidades europeias. Por isso, nesses lares ou se aquece a água e se faz a sopa recorrendo ao gás ou utilizando o chamado gás de botija.

 

Ora, o que o PÚBLICO hoje descobriu, quando foi fazer as contas, é que já é mais barato utilizar a electricidade para produzir calor do que recorrer ao gás de botija fornecido nas bilhas antigas, as mais baratas, as anteriores às da menina polaca. Porquê? Por duas razões. A primeira é objectiva: o preço dos combustíveis subiu, o gás aumentou. A segunda é um pouco malévola: como os consumidores de gás de botija não têm o mesmo poder reivindicativo dos camionistas, nesse segmento do mercado pode-se carregar nos preços que poucos protestam. Apesar de deverem protestar, porque ter de recorrer ao gás de botija é, por regra, sinal de que se vive numa zona menos urbanizada, ou pior urbanizada, e que se é mais pobre.

 

Do ponto de vista ambiental, trata-se da maior das aberrações: para aquecer o mesmo litro de água, recorrer à energia eléctrica representa, em média, que se emita o dobro de partículas de CO2 do que se se queimasse gás butano. Nenhuma autoridade de um país ambientalmente responsável devia permitir que isto sucedesse, mas em Portugal acontece. E acontece porque o sector do gás de botija não é regulado pela ERSE (a entidade que regula, quando o Governo deixa, o sector da energia), nem é regulado pela autoridade da concorrência. O PÚBLICO viu ontem como vários responsáveis foram remetendo para outros responsáveis, sacudindo a água do capote e, aparentemente, sem se incomodarem com as dores dos consumidores finais.

 

Não surpreende assim que, num sector onde os consumidores têm pouca visibilidade mediática e onde são poucas as empresas presentes, ou seja, num sector pouco escrutinado e com pouca concorrência, a factura do gás suba. Mesmo sem menina do gás e sem botijas hiperleves. Mas no dia em que as fanfarras do Governo se abriram para proclamar que anda a preparar a estratégia nacional de adaptação às alterações climáticas...

 

2.Na verdade, já nem chegou a ser surpresa que os exames de Matemática do 12.º ano, apesar de os alunos terem este ano mais tempo para os completar, sejam aparentemente mais fáceis do que os dos anos anteriores. Os métodos, neste domínio, do Ministério da Educação são conhecidos, pois já se sabe que não vão ser os pais nem os alunos a protestar (só os melhores alunos, que são poucos, se mostraram desconfortáveis com mais este facilitismo) e que, assim, as boas estatísticas estão garantidas. No ano em que mais perturbação houve nas escolas portuguesas, a ministra surgirá a reclamar os louros do milagre da excelência a Matemática.

 

Mas, se não chegou a ser surpresa, porquê voltar ao assunto? Pela razão simples de que mentir de mais já enjoa, mas parece não existir limites para a desonestidade intelectual do presidente do GAVE, que ontem voltou a insistir na ideia de que a associação que tem protagonizado a crítica ao facilitismo "aprovou os exames". Esta já esclareceu que é mentira, pois o GAVE não lhe pediu para avaliar se provas estavam bem delineadas e eram equilibradas, apenas que destacasse matemáticos que verificassem se existiam erros matemáticos nos problemas.

 

A semana passada criticámos a arrogância do responsável pelo organismo que zela pela correcção e equilíbrio dos exames. Agora, constatado o seu desequilíbrio e falta de vergonha, só podemos explicar o seu protagonismo porque está a servir bem quem o nomeou. Mas quem se surpreende num país onde, para estes lugares, se defende que o que conta é a confiança política e não a competência? Ninguém, só os que acham que um dia alguma coisa podia melhorar a sério, não apenas no jogo de ilusões em que estão transformadas provas de exame deste ano.