Diário de Notícias - 09 Jun 08

 

Abandono de crianças sobe no Verão algarvio
José Manuel Oliveira

 

Algarve. Empregos sazonais no turismo que não correm bem e relações ocasionais mal sucedidas estão muitas vezes na origem do abandono. Só nos últimos dois anos, o Refúgio Aboim Ascensão, em Faro, recebeu um total de 42 menores entre Junho e Agosto

 

Em média são abandonadas 20 crianças

 

O Verão é uma das épocas do ano "mais críticas no Algarve relativamente ao abandono de bebés pelos seus familiares, oriundos de diversas zonas do País", que procuram nesta região empregos sazonais ligados à actividade turística. Nalgumas situações, verificam-se também problemas com as autoridades, que acabam por levar à detenção dos pais dessas crianças, nomeadamente, devido a tráfico de droga ou envolvimento em furtos ou desacatos.

 

A contas com a justiça e sem outros familiares por perto, esses indivíduos chegam a ficar, pelo menos temporariamente, sem os filhos, que são acolhidos por instituições de solidariedade social. O período festivo do "Natal e passagem de ano, além do mês de Janeiro", são outras alturas em que o problema mais se coloca. Nestes dois períodos o abandono de crianças atinge valores bem acima dos verificados nos restantes meses. Entre Junho e Agosto, são abandonadas em média 20 crianças.

 

O alerta foi dado ao DN pelo psicólogo clínico Luís Villas-Boas, director desde 1 de Outubro de 1985 do Refúgio Aboim Ascensão, em Faro, onde foi criado o primeiro Centro de Acolhimento precoce e temporário de Emergência do País. No ano seguinte nasceria ali também a Emergência Infantil como modelo técnico de acolhimento, contrariador da tendência depositária de crianças, prevalecente em Portugal e na generalidade dos países europeu.

 

A situação de sazonalidade mais intensa dos acolhimentos no Algarve tem origem nos pedidos da Segurança Social através da Linha 144, das Comissões de Protecção, das Unidades de Saúde ou de Tribunais, e prende-se com "relações ocasionais mal sucedidas ao nível sócioemocional e actividades profissionais que também não correm bem nesses períodos". "As situações variam muito, mas existem cada vez mais internamentos precoces com bebés às vezes de apenas dias de vida, porque, por exemplo, as mães desapareceram e não há outros familiares para tomar conta das crianças", observou Villas-Boas. Ao Refúgio Aboim Ascensão chegam pedidos de internamento através das comissões de protecção de crianças e jovens, do distrito de Faro e de outros, bem como dos Tribunais de Família e Menores, da Segurança Social e dos hospitais.

 

"Em 2006 recebemos 24 crianças nos meses de Junho, Julho e Agosto, enquanto que em 2007 foram 18 no mesmo período", referiu o responsável daquela instituição, para quem "não é possível prever" o que se poderá passar durante este Verão, que está a começar.