Diário de Notícias - 05 Jun 08

 

Daniel Bessa alerta que "situação é mais difícil do que nunca"
Leonor Veloso, Castelo Branco

 

Economista diz que só há uma maneira de crescer: é exportar

 

A crise que desabou sobre o mundo em meados de 2007, vinda dos EUA, está para ficar e com "uma aterragem muito violenta e prolongada", com "consequências muito negativas para Portugal". Mas "o pessimismo é o pior dos pontos de partida", defendeu ontem, em Castelo Branco, Daniel Bessa, perante uma plateia de empresários e gestores. O economista lembrou que "não se pode gerir uma empresa com pessimismo" e que "só há uma maneira de crescer: é exportar".

 

"Num país tão pequeno e aberto, temos que investir para exportar, exportar para criar emprego e assim permitir que as condições de vida melhorem. Foi isso que não fizemos durante anos", sustentou o antigo ministro da Economia de António Guterres, no âmbito dos "Encontros Millennium".

 

"Portugal poupa pouco, o Estado gasta muito, as famílias têm um nível de vida muito elevado, as empresas têm dificuldades em reter o cash-flow e os lucros", revelou Daniel Bessa, resumindo que "Portugal vive acima das suas posses", tendo baseado durante anos o seu crescimento no consumo interno, uma "factura que estava ainda por pagar".

 

Considerando a dívida da banca como um dos "grandes problemas" que afectam o país, "esses 30 milhões de euros que por dia saem da banca para pagar o excesso de importações sobre as exportações", Daniel Bessa defendeu, porém, que "o endurecimento das condições de crédito (que veio para ficar)", e que tanto afectam particulares como empresas, "é uma atitude prudente".

 

Prevendo que "a cada onda de prosperidade segue-se uma onda de recessão", Daniel Bessa manifestou, porém, a sua surpresa pela forma "violenta e rápida como o mundo colapsou a partir do sistema financeiro", após anos de crescimento mundial em que Portugal não soube aproveitar as oportunidades para crescer. "Era muito importante que o mundo continuasse a crescer, porque nós, com as nossas dificuldades, estávamos a dar os passos certos", argumentou o economista.

 

Porém, "pela primeira vez, o nosso crescimento depende de nós". E apelidou de "jóias da coroa" algumas médias empresas, "saídas do meio da tabela", que se têm destacado no contexto nacional, viradas para a exportação, como "uma Sogrape, a Efacec ou a Salsa", empresas que crescem entre 20% a 30% ao ano e que há poucos anos ainda não eram conhecidas.

 

Estas, e outras empresas de base tecnológica, saídas do meio tecnológico e universitário, são "um sinal positivo e a via estreita para a recuperação" que, na opinião do economista, "já é tarde, pois deveria ter começado há dez ou 15 anos", quando Portugal viveu uma época de euforia de 1985 até 2000. Hoje, "a situação é mais difícil do que nunca, mas não temos direito de nos rendermos", concluiu.

 

Os "Encontros Millennium bcp", que tiveram uma primeira edição no Algarve, em Abril último, levaram o conselho de administração do BCP a visitar, ontem e terça-feira, todas as sucursais do banco do distrito de Castelo Branco, uma das capitais do interior do país que "mais beneficiou do aumento do investimento e emprego públicos" dos últimos anos. Os próximos encontros decorrerão na cidade do Porto, em Julho.