Público - 04 Jun 08

 

A vantagem de ter fé e esperança
Manuel Pires

 

Qual o sentido da vida humana? Como podemos ser felizes individual e colectivamente?

 

Não sei se Tu existes
Não creio que Tu existas
Só necessito que Tu existas
David Mourão Ferreira

 

Admito que dos mil e cem milhões de católicos actualmente existentes no mundo nem um por mil tenha lido a encíclica de Bento XVI, Spe Salvi, publicada no ano transacto, e que a maioria nem saiba da existência dela. Aliás, pareceu-me não ser de leitura fácil. Exige interesse, concentração e reflexão por parte do leitor.

 

No entanto, constata-se que toca nas grandes questões com que, desde tempos imemoriais, a humanidade se depara: qual o sentido da vida humana? Existirá outra vida para além da morte? Como nos poderemos livrar - ser salvos - deste plano inclinado para a insatisfação, para esta infelicidade aparentemente congénita a que não é alheio sabermos que a morte é garantida? Como ser felizes individual e colectivamente?

 

Questões a que as religiões tentam dar respostas, dando todas uma grande importância à paz interior e à tranquilidade. Para o hinduísmo e o budismo é uma preocupação central. Para o cristianismo a paz de espírito está na consciência muito enraizada de se ser amado por Deus.

 

No que se refere à última questão, Bento XVI cita alguns dos maiores pensadores que se debruçaram sobre o tema, referindo que todos eles falharam na solução completa e adequada para a questão social: quer Engels, quer Marx ou Lenine todos contribuíram para um diagnóstico válido mas falharam na terapêutica. Porquê?Esqueceram que o humano permanece sempre humano, lê-se na encíclica.

 

O documento parece dar particular realce à questão da felicidade individual. É neste âmbito que o Papa propõe a fé e a esperança como soluções para tais questões do ser humano.

 

Indica como elemento distintivo dos que têm fé (em Cristo) o facto de estes "terem futuro". E acrescenta: "Somente quando o futuro é certo como realidade positiva..." é que o presente se torna "vivível". "A quem tem esperança", é-lhe dada "uma vida nova".

 

E qual é esse futuro? Esse futuro inclui a vida terrena e a eterna que nos é garantida pela fé e esperança.

 

Citando o grande teólogo da Igreja, Tomás de Aquino, explica: "A fé é um habitus, uma predisposição do espírito em virtude do qual a vida eterna tem início em nós e a razão é levada a acreditar naquilo que não vê"...

 

E mais à frente: "A fé dá-nos já agora algo da realidade esperada, e esta realidade presente constitui para nós uma "prova" das coisas que ainda não se vêem."

 

Quem pode deixar de ver aqui uma certa "engenharia" cerebral com vista a provar algo em que há vantagem acreditar?

 

Porque há. É que ela cria valores, sublima fraquezas. E a intuição popular não deixa de o assinalar: "Um homem sem fé é como um morto em pé."

 

A simples determinação de um homem em seguir um rumo em que acredita, dá-lhe vantagem sobre outro cuja dúvida sistemática lhe prejudica a caminhada.

 

Observando a história, verifica-se que a crença no sobrenatural, sem preocupações de a fundamentar com argumentos racionais, é uma constante. As raízes de praticamente todas as civilizações actuais foram influenciadas pelos mitos que criaram e aceitaram ao longo do seu devir histórico. Muitos deles continuam a exercer influência.

 

Não será por acaso que tal acontece. Eles preencheram sempre um fosso entre o incompreensível e a necessidade de o explicar, entre o desejo de se ser feliz e a sensação de constante insatisfação, entre a fatalidade e a necessidade de resignação.

 

Talvez se possa afirmar que, até ao presente, apesar das grandes influências do racionalismo, aquelas perguntas atrás referidas só tiveram respostas, na maioria dos casos, com o recurso às religiões, sempre apoiadas em mitos. Estes foram, quiçá, meios, instrumentos, da modelação do Homo sapiens, saído, estupefacto e intrigado, do puro mundo animal no seguimento da evolução da espécie.

 

E agora? Vamos condenar e lançar para o lixo, sem mais nem menos, aqueles instrumentos? Não se podem afastar sem algum cuidado. Alguns deles serviram de molde a muitos valores culturais de que a Humanidade usufrui e dos quais não prescinde sob pena de pôr em risco a própria sobrevivência. Com o devido respeito, diria que não se pode lançar fora o bebé juntamente com a água da lavagem. Economista