Público - 27 Jun 06

O lugar dos filhos

José Manuel Fernandes

Ter um filho requer um investimento pessoal de que se espera retirar gratificação emocional. Como isso não tem preço, não se "subsidiam" taxas de natalidade

No passado sábado, o caderno de fim-de-semana do Financial Times publicava um interessante texto sobre a forma como tem evoluído o lugar das crianças na sociedade. Ou, se preferirmos, dos filhos nas famílias.
O ponto de partida era o habitual: as taxas de natalidade têm caído de forma consistente no mundo desenvolvido. O ângulo de abordagem é que era completamente diferente. Em lugar de falar do habitual - os novos hábitos de vida, o novo lugar da mulher na sociedade e no mercado de trabalho, o casamento ou o divórcio, os dilemas entre ter um filho ou seguir uma carreira profissional -, o texto recordava que, no passado, ter filhos era importante para assegurar a própria sobrevivência, enquanto hoje ter filhos surge com frequência como um "peso" que só pode ser compensado por uma forte recompensa emocional.
Vale a penas explicar um pouco melhor o raciocínio, pois ele permite perceber melhor por que razão as taxas de natalidade começaram a cair ainda antes da generalização da pílula e como é difícil associá-las directamente à religião praticada ou ao seu peso na sociedade. Durante séculos, mesmo milénios, ter filhos era garantir que se teria braços para ajudar nos campos (depois nas fábricas) e que conservar os filhos por perto podia funcionar como uma espécie de "seguro na velhice", quando lá se chegava. Há romances do início do século passado que contam histórias de famílias que pediam crianças a orfanatos para as ajudarem nos trabalhos agrícolas e ainda hoje há registos de generalizado trabalho infantil em muitas partes do mundo (incluindo certas regiões de Portugal).
A mudança começou primeiro com a universalização do ensino e, mais recentemente, com a condenação do trabalho infantil. Mas prosseguiu depressa para o pólo oposto. O Financial Times relatava a recente inauguração em Londres de uma sofisticada loja da Dior exclusivamente dedicada a produtos para crianças (Baby Dior) e via nela um sinal de como se passou rapidamente do tempo em que se dizia que não se devia estragar uma criança com mimos à era em que a criança é o centro absoluto da vida familiar, determinando-a em todos os pormenores. Judith Harris, autora de uma obra recente sobre a formação do carácter das crianças e ela mesma uma avó, lamentava mesmo a tendência para "o lar deixar de ser comandado pelos pais, antes depender da vontade das crianças", algo que constatara ser prejudicial à vida familiar.
Esta hiperprojecção de expectativas nos filhos e a tendência para subordinar ao seu bem-estar - por vezes mais idealizado do que real - toda a vida familiar implica naturalmente que escolher ter um filho represente hoje um tal investimento emocional e financeiro que assusta muitos potenciais pais. E assusta mais ainda nos países onde a transição entre o mundo rural e o urbano ocorreu há menos tempo e de forma mais rápida, países onde as mutações culturais e sociais foram também mais abruptas, como se pode comprovar olhando para os números de natalidade da Europa do Sul, os mais baixos da União Europeia.
É por isso que é necessário muito mais do que um ou outro incentivo fiscal para inverter esta tendência inexorável. É necessário quer reequilibrar a relação entre investimento e expectativas, quer criar condições para que os outros óbices a ser-se pai, ou sobretudo ser-se mãe, antes dos 30 anos e, depois, ter mais do que um filho, desapareçam. Ora esses obstáculos estão muito longe de ser sobretudo económicos e, por isso, resolúveis, devolvendo aos pais uma parte dos seus impostos. E não podemos continuar a ignorá-los, até em nome dos poucos filhos que vamos tendo.