Público - 21 Jun 06

Faltam polícias fardados nas ruas

Cresce a criminalidade violenta praticada por jovens

José Bento Amaro

Taxas de eficácia policial rondam os 70 por cento, mas o número de delitos parece crescer à medida que aumenta o insucesso das medidas preventivas e de reabilitação

Roubos, sequestros, até tentativas de homicídio. Este tipo de criminalidade, praticado por jovens em estabelecimentos, na via pública e em transportes, é, dizem os investigadores, o mais comum em todo o país. Gerador de crescente sentimento de insegurança, ameaça tornar-se incontrolável a curto prazo, sobretudo se, conforme dizem responsáveis da PJ, não se verificar um rápido ressurgimento do policiamento fardado nas ruas.
No lapso de três semanas, a Polícia Judiciária (PJ) de Lisboa deteve 14 jovens suspeitos da prática de dezenas de crimes violentos. "Só na área da Directoria de Lisboa recebemos, por semana, entre 20 a 30 participações por roubo. No Porto, no entanto, esta criminalidade tem proporções superiores", diz o subdirector nacional adjunto da Directoria de Lisboa da PJ, Vítor Alexandre.
Porto e Lisboa são as duas zonas do país de maior incidência neste tipo de criminalidade e, à falta de números seguros, os investigadores arriscam uma extrapolação: o total dos roubos praticados por grupos de jovens sem planificação pode chegar aos quatro mil por ano.
"É evidente que estas situações causam grande alarme social e resultam, em grande parte, da falta de policiamento fardado nas ruas. É inegável que, à vista de uma farda, quem pretende cometer um crime, seja de que tipo for, se retrai sempre mais, que muitas vezes nem sequer o pratica", afirma Vítor Alexandre.
O responsável da PJ entende ainda que, pelo facto de os delinquentes referenciados serem quase todos muito jovens, existem "fortes possibilidades" de, no futuro "haver uma evolução para um tipo de criminalidade ainda mais violenta".
"Este é um problema [o da delinquência praticada por grupos etários muito baixos, mas não obrigatoriamente juvenis] que assenta, em grande parte, na falta de condições de reintegração assentes nas condições proporcionadas pelas famílias e, também, no sistema escolar", refere o mesmo director.
Também as actuais medidas penais merecem alguma contestação por parte de Vítor Alexandre, o qual refere que nem sempre são aplicadas as sanções mais adequadas. "O que constatamos é que há jovens que, tendo ficado sujeitos a medidas de apresentação periódicas, nem sequer se chegam a apresentar duas vezes [normalmente às esquadras e postos policiais da área onde residem], sem que voltem novamente a ser detidos pelo mesmo tipo de crimes", adiantou.

Índices de resolução
rondam os 70 por cento
A criminalidade violenta, maioritariamente urbana, que preocupa as autoridades policiais, tem sido alvo, pelo menos desde há cerca de um ano, de especiais atenções por parte da PJ. Assim, em lugar de se fazerem a prevenção e a repressão com as habituais duas brigadas (cada qual constituída por cinco ou seis investigadores), passou a adoptar-se uma nova táctica, que consiste em ter uma terceira equipa de prevenção a cada 24 horas. Essa equipa é constituída por oito ou nove elementos e tem a particularidade de, uma vez iniciado o processo de averiguações, o acompanhar até final.
"É uma medida que tem vindo a dar resultados positivos, na medida em que permite que sejam sempre os mesmos polícias a investigar um determinado grupo ou um determinado suspeito, evitando-se que, com a dispersão, se percam elementos fundamentais", explicou Vítor Alexandre.
Esta nova abordagem tem-se traduzido, ainda de acordo com o mesmo responsável policial, num aumento da taxa de eficácia, que corresponde, em termos de efeitos imediatos, a cerca de 50 por cento. "Os resultados obtidos através de averiguações posteriores, a médio prazo, resultam, pelo menos, em mais 20 por cento de eficácia, pelo que a taxa de resolução anual dos casos ronda os 70 por cento."