Público - 02 Jun 06

O país irreal

Constança Cunha e Sá

 

O país irreal em que vivemos, com férias pagas no Brasil e automóveis para todos os gostos, não se compadece com diagnósticos desagradáveis que anunciam o fim deste feliz estado de coisas

Como seria de esperar, os Prós e Contras, desta semana, não bateram nenhum recorde de audiências. Uma coisa é ter o prof. Manuel Maria Carrilho, no centro de uma irresistível peixeirada sobre os vícios do jornalismo e as sinistras conspirações que afundaram a sua campanha; outra é ter que ouvir o dr. Medina Carreira dissertar sobre a despesa pública e a inviabilidade do Estado. No primeiro caso, está garantido o sucesso: não há ninguém que não goste de uma boa polémica, principalmente se for uma polémica inútil que serve apenas para exercitar os ânimos e as pequenas vaidades de cada um. No segundo, o caso complica-se: a crise económica é um tema árido que não suscita qualquer entusiasmo. O país irreal em que vivemos, com férias pagas no Brasil e automóveis para todos os gostos, não se compadece com diagnósticos desagradáveis que anunciam o fim deste feliz estado de coisas. As previsões do Banco de Portugal ou do FMI, que confirmam o desastre das contas públicas e a fracasso dos mais variados "Planos", são pequenas nuvens que não arrefecem o milagre do consumo e a irresponsabilidade dos políticos. Entre a retórica da confiança e o inevitável recurso ao crédito, vamos vivendo alegremente acima das nossas posses, na certeza de que o Estado, na sua imensa boa vontade, se encarregará de assegurar o nosso duvidoso futuro. O já conhecido pessimismo do dr. Medina Carreira sobre o futuro do país "real" é algo com que o país "irreal" obviamente não se incomoda. Não é em vão que somos o terceiro país da Europa com o maior número de carros por habitante. E que acima de nós só se encontra a Itália e o Luxemburgo.

A análise da crise e das suas consequências está, pois, entregue a "velhos do Restelo" que gostam de se alongar nas desgraças, tentando, com manifesta má-fé, destruir o nosso justificado optimismo. Ora, como se vê pelo comportamento dos telespectadores, os tempos não estão para lamúrias orçamentais que têm o condão de nos deprimir, impedindo-nos, ainda por cima, de participar, com a auto-estima devidamente insuflada, no grande "desígnio nacional" que se aproxima. Nesta altura do ano, semeada de futebol, de pontes e de feriados, precisamos, mais do que nunca, de entretenimento fácil, de consensos alargados e de nos concentrar na selecção e nos jogos do Mundial. Uma mão-cheia de vitórias e veremos se o sr. Jack Welch, esse gestor excessivamente cotado, se atreve a falar, outra vez, da imagem "humilhante" que Portugal tem "no exterior". Ao contrário do que "o exterior" possa pensar, nós sabemos bem quais são as nossas prioridades: "a contínua degradação" do país, que o sr. Jack Welch teve o desplante de nos atirar à cara, redime-se com o patriotismo que invariavelmente desponta com o futebol. Os americanos não conhecem os efeitos da auto-estima! Mas os relatos que nos chegam de Évora, onde o povo confraterniza com a selecção num clima de franca e elevada histeria, revelam as potencialidades do fenómeno.

Como ainda ontem referiam Luciano Amaral e Mário Bettencourt Resendes, no Diário de Notícias, há sempre uns "intelectuais" virtuosos que gostam de exibir o seu imenso desprezo por este saudável "entretenimento" que nos engole de tempos a tempos. Segundo Luciano Amaral, não percebem as emoções "primitivas" que se soltam num campeonato de futebol; segundo Mário Resendes, julgam que o mundo da bola é "controlado por máfias corruptas". De facto, só um ser desfasado da realidade, que não reconhece o carácter saudável da alienação, é que pode considerar que o futebol é "um mundo à parte" onde ninguém tem coragem de tocar. Os sucessivos escândalos que envolvem autarcas e dirigentes desportivos têm uma importância reduzida, quando comparados com as alegrias que nos pode oferecer um jogo de futebol. De qualquer forma, e como se tem visto, todos estes escândalos acabam por ser reduzidos a cinzas, depois dos respectivos processos se afundarem em pormenores técnicos e peripécias avulsas.

Felizmente a classe política tem outro entendimento da realidade que a rodeia. O eng. Sócrates não deixou de ir a Évora saudar a selecção com uma "palavra de confiança" e com a garantia de que a equipa conta com o "apoio e simpatia de todos os portugueses". Ontem foi a vez de o Presidente da República se juntar à "sociedade civil" e de receber em Belém os jogadores da selecção. E a Assembleia da República, num gesto que só a dignifica, alterou por unanimidade a ordem de trabalhos do próximo dia 21 para que os deputados possam ver, no aconchego do lar, o jogo entre Portugal e o México. Como é óbvio, depois disto, não há português que não se sinta no pleno direito de "alterar" o seu horário de trabalho de forma a poder seguir atentamente a epopeia de um país que tem no futebol uma fonte inesgotável de auto-estima.

Perante isto, é impossível dizer que o futebol, em Portugal, é apenas um "entretenimento". O futebol, com as suas emoções à flor da pele e o seu saudável "primitivismo" é, em Portugal, uma epopeia que se inicia ciclicamente ao som de uma intensa e patriótica histeria. Para alguns especialistas na matéria, a bola cria um "sentimento de entrega" e de "partilha" que, aparentemente, não existe, entre nós. Como se sabe, há países que se unem em torno de objectivos fúteis (como assegurar o futuro, por exemplo) ou de um passado comum de que inexplicavelmente se orgulham. Nós, em contrapartida, unimo-nos gloriosamente em torno de uma equipa de futebol e das extraordinárias vitórias que esta, com um pouco de sorte e um rasgo de imaginação, poderá vir a alcançar. Isto, sim, faz-nos pôr uma bandeirinha à janela.
Durante uma ou duas semanas, a pátria vibra ao som do hino e da bandeira, com o futuro depositado nos pés de Pauleta ou na cabeça de Cristiano Ronaldo. Depois, a euforia dos primeiros dias dá invariavelmente lugar a uma longa e compreensível depressão. Uma falha de Figo ou um passo em falso de Deco são capazes de destruir as ambições de um país que reduziu o seu destino aos jogos do Mundial. Ao fim de várias derrotas, os heróis da selecção transformam-se num grupo de incompetentes. E o país abraça outro grande "desígnio nacional". Pode ser Timor (embora os apologistas da causa comecem a achar que os timorenses não merecem esse tratamento especial) ou os pobrezinhos do interior desertificado que o prof. Cavaco Silva quer agora repovoar à custa da imigração. Desde que não se ponha em causa o país irreal em que nos instalámos, a porta está aberta para os mais improváveis consensos.