Público  - 25 Jul 08

 

Governantes chineses pagam silêncio de pais

 

A filha de Yu Tingyun morreu quando a sua escola se desmoronou no terramoto de 12 de Maio, na província chinesa de Sichuan. Foi uma entre 240 alunos. Yu tornou-se o líder dos pais que procuram saber se o edifício caiu por causa de má construção. Na semana passada, um responsável do Governo local pediu-lhe que entrasse no carro, estendeu-lhe um papel e uma caneta. Quis comprar o seu silêncio, relatava ontem o jornal New York Times.

 

Um dia antes deste encontro, a polícia interrogou-o e apresentou-lhe o contrato. Yu deveria não só calar as suas questões, como afirmar que o Partido Comunista "mobilizou a sociedade para nos ajudar"; em troca receberia um pagamento em dinheiro e uma pensão. "Quando vi que a maioria dos pais assinara, também assinei", disse ao diário nova-iorquino. Quem se recusar a assinar não recebe nada, adianta o NYT.

 

"Não queremos dar chatice ao Governo antes dos Jogos Olímpicos", justificou ainda Yu, motorista de profissão. "Não queremos prejudicar a imagem do país."

 

O jornal escreve que governos locais de Sichuan arrancaram com uma campanha coordenada para comprar o silêncio dos pais revoltosos cujos filhos morreram no sismo, que matou mais de 70 mil pessoas (dez mil delas crianças), segundo foi possível apurar depois de mais de uma dezena de entrevistas a pais de quatro escolas que ruíram. Pais de uma escola de Hanwang receberam o equivalente a mais de 5500 euros em dinheiro e uma pensão de quase 3500 euros.

 

Tem também havido outros métodos, como a polícia de choque a impedir manifestações de pais (que na maioria dos casos perderam o seu único filho), e os media a receber instruções para não noticiarem desmoronamentos de escolas. O advogado Huang Qi, que tentou ajudar os pais das vítimas, foi detido.