Jornal de Negócios  - 24 Jul 08

 

Tamagotchis à portuguesa
Luís Pais Antunes

 

Quando, em 1996, a Bandai começou a comercializar no Japão aquela irritante "espécie de animal electrónico", que ameaçava transformar cada criança em algo semelhante ao cão de Pavlov, estaria longe de imaginar que, 12 anos depois, algures do outro lado do mundo, houvesse quem parecesse estar apostado em fazer de Portugal o primeiro país tamagotchi do mundo.

 

Para os mais distraídos, o tamagotchi é um "brinquedo" que permite "criar" um animal virtual de estimação e cujo detentor é responsável por lhe dar comida virtual, banho virtual, carinhos e cuidados virtuais, sob pena de "sanções", que, invariavelmente, significam a "morte" do dito. No auge da "euforia tamagotchística", era ver as crianças desesperadas a tentar responder aos sinais de chamamento do bicho para o alimentar, cuidar e salvar do fim iminente. A tecnologia foi-se apurando e, ao que consta, em Dezembro assistiremos ao lançamento da 46ª versão, o chamado Tamagotchi V6. Pelo meio, os requintes aprimoraram-se, permitindo, entre outras coisas, fazer compras virtuais, ter filhos virtuais e até celebrar casamentos por infra-vermelhos (sinal dos tempos, se bem percebi, a possibilidade de realizar casamentos veio depois do aparecimento dos filhos...).

 

Portugal, um dos países que, no plano virtual, se afirma já como um dos tecnologicamente mais avançados, caminha decididamente na boa direcção. Cansado de decretar por várias vezes o fim da crise, sem que esta se dê ao trabalho de desaparecer, cansado de ver relatórios indicarem o aumento do desemprego, do endividamento e dos índices de iliteracia e abandono escolar, cansado da realidade, que persiste em não se conformar com os nossos desejos, começámos decididamente a seguir um caminho diferente. E, quase que como por milagre, de repente, tudo ou quase tudo adquiriu uma nova luz. A economia não cresce? Faça-se um grande aeroporto, várias linhas de TGV e muitos quilómetros de auto-estrada, que serão pagos com dinheiro virtual, gerando muitos milhares de virtuais postos de emprego. Essas grandes obras permitirão acolher milhares de jovens que, através de notas e cursos virtuais, adquiriram diplomas e conhecimentos virtuais que, virtualmente, colocarão ao serviço da sociedade.

 

Indiferentes à escalada dos preços do petróleo e dos bens alimentares, muitos portugueses - que nos últimos anos aumentaram de forma preocupante o seu grau de endividamento, devendo já ao exterior mais do que aquilo que conseguem produzir num ano - preparam-se, a esta hora, para "atacar" um cozido virtual, regado com um bom Douro, reserva virtual, enquanto assistem na televisão a mais uma cerimónia de anúncio de um PIN que, provavelmente, será também ele virtual. Mais logo, reunirão a família e arrancarão com destino a uma paradisíaca praia de areia virtual onde, ao longo do próximo mês, se sentarão em frente a uma tela gigante, que reproduzirá um oceano a três dimensões ao som das ondas, debitado por um potente virtual surrond sound system. Outros, mais preocupados com os tempos que correm, decidiram (re)colocar na agenda a discussão sobre o nuclear que, está-se mesmo a ver, é a solução para os problemas que nos afligem.

 

Não sendo a primeira vez que assisto ao digladiar dos argumentos dos pró e dos contra, nem fazendo parte daqueles para quem este tema, ou é um tabu, ou uma questão de fé, confesso que a atenção que prestei ao debate foi mais virtual do que real. Não vejo nenhum inconveniente em que Portugal, a exemplo de muitos dos seus principais parceiros europeus, aposte no nuclear. Mas também sei que os frutos dessa aposta levarão muito anos a aparecer e a amadurecer.

 

Foi então que me lembrei: porque não construir já uma central nuclear virtual, digamos, com 8 reactores, também eles virtuais? Os muitos milhares de milhões de euros que o investimento representaria poderiam ser fácil e rapidamente pagos através do recurso a um financiamento virtual de um banco igualmente virtual. No espaço de poucos dias estaríamos em condições de produzir - e até exportar - energia virtual. Aí sim, seríamos virtualmente felizes!