Público última hora - 18 Jul 08

 

Política na China
Um filho, uma fortuna
Francisca Gorjão Henriques

 

"Nunca tinha visto um ocidental tão de perto", afirmou Wang Zhong Nian para explicar porque o filho está tão assustado. Há todo um quadro social a traçar à volta das reacções de Wang Zhe: "As famílias estão a ficar muito isoladas. As crianças são filhos únicos e não estão habituadas a estar com outras pessoas. O comportamento do meu filho é um exemplo disso."

 

Wang Zhong Nian critica a política imposta pelo regime em 1979 para deter a explosão demográfica. "Se a família pode sustentar dois filhos, que tenha os dois filhos. É melhor para o crescimento mental das crianças. Esta política é extrema." E o resultado é que "o filho é um rei em casa, totalmente controlador e mimado pelos avós. Nunca deixa a mãe falar com outras pessoas mesmo lá em casa, começa a gritar."

 

Os observadores apontam para outros problemas: é sobre eles que recaem todas as expectativas e todos os sonhos que os pais nunca puderam realizar. É por isso que o investimento na educação dos filhos é uma das grandes prioridades. Investe-se em escolas privadas, em explicações, aulas de dança e música e inglês... As crianças começam a ter horários tão sobrecarregados como os pais.

 

Não é só o excesso de atenções que acaba por cair nos ombros dos filhos únicos. O confucionismo constitui ainda o pilar das relações sociais e faz dos filhos o grande apoio na velhice dos pais. Num país onde não há reformas e os seguros são ainda pouco frequentes, um único filho terá de tomar conta de dois, às vezes quatro (com os avós) idosos.

 

Fang Su nunca pensava no facto de não ter irmãos. "Nenhum dos meus amigos tinha." Conta como se contornava a questão: "Havia a moda de chamar irmã à melhor amiga da escola, ou às colegas mais próximas. Era uma forma de criar um laço." Tem apenas 24 anos, ainda não se casou, e por isso a ideia de ter filhos faz parte de um projecto a longo prazo. Quer dois ou três, "dependendo da situação financeira, se tiver uma casa grande com espaço para eles brincarem e dinheiro para não ter que trabalhar o tempo todo".

 

O dinheiro faz sempre parte da equação: "Os filhos são muito caros na China. Há estimativas dos custos desde que nascem até irem para a universidade: 300 mil yuans." Ou seja, 28 mil euros. "Comigo gastaram mais porque fui para o Canadá estudar. Os chineses investem muito na educação dos filhos porque acham que essa é a chave para o seu futuro." Su teve sorte, porque os seus pais puderem vender um dos três apartamentos que tinham. Fez uma pós-graduação em Comunicação em Vancouver e o seu inglês é agora perfeito.

 

Diz que os pais não a estragaram com mimos, mas lembra-se do dia em que fez 13 anos e o pai lhe deu uma ordem: "Abre aquela mala." Estava carregadinha de presentes. Mas sente a pressão: "Vai aumentando à medida que vou crescendo. Terei de ser eu a tratar de dois funerais sozinha. O meu pai já disse que comprará a sua própria campa." E remata: "Dizem que somos uma geração de meninos egoístas, mas não há país onde os jovens se preocupem tanto com o futuro dos pais."