Jornal de Negócios - 17 Jul 08

 

E o vento mudou, mas tudo fica na mesma
Nuno Garoupa

 

Não é preciso andar nos meandros do governo para perceber que o vento político mudou. Basta ler os artigos de opinião e os blogs dos apoiantes do governo, basta ouvir as intervenções dos vários ministros e dos apparatchiks socialistas, basta prestar atenção ao primeiro ministro. O tom e o discurso agora são outros.

 

Fala-se menos das grandes reformas estruturais e dos resultados potentes que as estatísticas oficiais adivinhavam. Agora, trata-se de responder a quem critica, insultar quem discorda, fazer pouco de quem não elogia o governo. Insiste-se na falta de projecto do PSD e na demagogia da oposição à esquerda do PS. Digamos que, dantes, cada intervenção de um guru socialista era 80% a falar da obra que estava a ser construída pelo grande líder e 20% a criticar os outros, agora, é 80% a insultar e a atacar a oposição, a SEDES e tudo o que mexe e apenas 20% a defender uma obra, que infelizmente para todos não produz resultados.

 

Sem resultados (ou com resultados supostamente adiados para a próxima legislatura), ficou complicado só falar da obra. Muitos portugueses são como São Tomé, querem ver para crer. Poucos acreditam a pedido do primeiro-ministro. E como o governo não pode mostrar resultados consistentes e sólidos, por mais malabarismo que tentem com os números, teve que mudar de discurso. Claro está, a crise internacional é a mãe de todos os problemas. Contudo, ainda não ouvi um apoiante do governo explicar como é que a crise internacional explica a continuação da nossa divergência real depois de todas as grandes reformas (supostamente o problema interno está solucionado). Confundem propositadamente a desaceleração da taxa de crescimento (isso sim, potencialmente consequência da conjuntura internacional em que estamos) com a manutenção dessa taxa abaixo da média europeia e mesmo da espanhola (prova evidente de que as reformas não tiveram os resultados que o governo prometeu e de que o objectivo anunciado pelo governo em 2005, de retomar a convergência real, fracassou rotundamente).

 

E, contudo, parece-me que o governo tem razão nos argumentos que vai apresentando para pedir a renovação da sua maioria absoluta. No fundo, o que se fez neste mandato é o melhor que se pode fazer, dada a conjuntura económica e social, dado o que quer e não quer a esmagadora maioria dos eleitores, dada a disponibilidade e a capacidade inovadora das elites que temos. É o reformismo possível, com os resultados possíveis. E o PSD, com ou sem CDS, não faria melhor. Não o fez em 2002-2005, quando teve a oportunidade política. As propostas alternativas que vai apresentando e as caras da oposição que vai mostrando provam que nada mudou desde então, deixando a legítima dúvida sobre o que seria diferente agora.

 

O verdadeiro problema não é do PS, mas dos portugueses. As reformas do governo foram o melhor possível por quem melhor as podia fazer. Mas são insuficientes, sem resultados, adiada que está a retoma da convergência real para 2014 (naquilo que para mim é o cenário optimista da OCDE, já que me inclino mais para a previsão de Henrique Medina Carreira de que seremos o país mais pobre da UE27 em 2020, previsão que foi gozada de forma arrogante e deselegante pelos mesmos que nos diziam no final dos anos 90 que hoje estaríamos entre os mais ricos e desenvolvidos da união). E soluções milagrosas vindas de Belém são uma mera ilusão que seguramente o actual Presidente da República não vai poder satisfazer. A melhor previsão para a próxima legislatura é que vai ser mais do mesmo, em bloco central, versão maxi (PS-PSD), ou em versão mini (PS-CDS).

 

Para quem acompanha o que se passa em Portugal desde fora, resta constatar a paciência dos portugueses. Dez anos a falar de crise, vinte anos de promessas jamais cumpridas, sempre os mesmos a dizer que agora é que vai ser, dezenas de ministros e secretários de Estado que descobrem as receitas milagrosas depois de sair do governo. E, surpreendentemente, nada muda. Entre PS e PSD, a vida continuará, com mais das mesmas receitas. E com outros quatro anos a falar do empobrecimento relativo de Portugal.