Público - 16 Jul 08

 

Pelo menos mais dois anos a apertar o cinto

 

Em 2002, quando os portugueses pela primeira vez tomaram consciência da entrada em crise da economia portuguesa, poucos imaginavam que, passados sete anos, a situação de austeridade ainda se faria sentir.

 

Mas, ontem, o Banco de Portugal não deixou margem para dúvidas. Inflação elevada, aumentos moderados dos salários, evolução negativa do mercado do trabalho e aumento da pressão exercida pelo endividamento serão fenómenos dominantes em 2008 e 2009. Este ano e o próximo serão para as famílias e as empresas portuguesas de forte aperto orçamental, sentindo-se, em alguns aspectos, restrições ainda mais graves do que aquelas que já foram vividas nos anos mais recentes: inflação elevada, aumentos moderados dos salários, evolução negativa do mercado do emprego e aumento da pressão exercida pelo endividamento.

 

Em primeiro lugar, o rendimento disponível (aquilo com que as pessoas ficam depois de acrescentar ao seu rendimento as prestações sociais recebidas do Estado e retirados os impostos) vai apresentar, este ano, um crescimento real "mais moderado", uma consequência directa da subida forte da taxa de inflação, que não é acompanhada por uma melhoria correspondente das condições salariais. É por isso que o consumo das famílias vai crescer menos este ano do que em 2007.

 

Para 2009, o aperto ainda será pior. O rendimento disponível real continuará a apresentar um valor moderado e os portugueses, cada vez mais pressionados pelo pagamento das prestações do seus empréstimos, vão ser mesmo obrigados a poupar. O consumo crescerá apenas 0,7 por cento, o cenário mais negativo desde 2003.

 

Do lado do emprego, o cenário também não é dado a optimismos. O Banco de Portugal não faz previsões para a evolução da taxa de desemprego, mas deixa a entender que uma nova subida é possível já a partir de 2009. Pelo menos é o que demonstram as estimativas para a taxa de crescimento do emprego. Depois de um crescimento de 0,7 por cento este ano, antecipa-se um abrandamento para 0,4 por cento, o que, diz o Banco de Portugal, é "uma evolução mais consentânea com a projecção para o crescimento da actividade".

 

Do lado das empresas, o cenário também não é nada tranquilizante. Com o consumo doméstico e a procura proveniente do exterior a abrandarem prevêem-se dois anos de dificuldades para equilibrar as contas. Um problema que se agrava, se se tiver em conta que o pagamento de juros pelos empréstimos assumidos deverá aumentar e o novo recurso ao crédito poderá ficar ainda mais difícil. É por isso que, depois de uma recuperação no ano passado, o investimento volta a abrandar já durante o presente ano.