Público - 10 Jul 08

 

A Greenpeace e o consumo de peixe pelos portugueses
António Schiappa Cabral

 

Desafio a Greenpeace a expor os seus pontos de vista nos Conselhos Consultivos Regionais de Pesca da UE

 

Foi recentemente notícia uma acção de protesto da Greenpeace numa grande superfície, contestando, com o habitual recurso a técnicas exuberantes de alarme, o consumo de alguns peixes pelos portugueses. Não comento o folclore da iniciativa, pois cada um decide as encenações a que dá corpo. Lamento, sim, a falta de rigor da campanha, pobre em argumentos técnico-científicos, substituídos por recomendações catastrofistas que, na ausência de contraditório, facilmente impressionam quem as escuta. Não podia faltar no cardápio a já desacreditada atoarda da extinção do bacalhau, incutindo receios infundados e procurando coagir os portugueses a consumirem menos vezes o seu prato de eleição Lamenta-se que a Greenpeace não distinga o stock de bacalhau do Mar do Norte (efectivamente sujeito a um plano de recuperação e que, até por isso, se percebe que não está extinto), de todos os stocks autónomos de bacalhau do Atlântico, cujos índices de segurança biológica são excelentes, representando mais de 80 por cento da biomassa desta espécie existente neste oceano.
A pesca na União Europeia é das actividades mais condicionadas no seu exercício por uma política comum imperativa, que limita as capturas e os dias de mar para as embarcações. Valorizam-se pareceres científicos e regimes precaucionários de gestão que, na ausência de conhecimento sobre o estado de recursos, restringem a capacidade produtiva. A selectividade das artes de pesca tem sido melhorada, por aumento da malhagem das redes, às quais são acoplados dispositivos técnicos que visam impedir a captura de peixe juvenil.

 

Sob a égide das Nações Unidas, estão constituídas organizações regionais de pesca que gerem águas internacionais, no seio das quais se privilegia a protecção ambiental, através de planos de recuperação de stocks menos robustos e medidas cautelares de protecção de ecossistemas marinhos vulneráveis, com erradicação total da pesca nas zonas marítimas onde existam ou se suponha que possam existir.

 

Por muito que custe à Greenpeace, a pesca comunitária é uma actividade ordenada, sujeita a complexas e exigentes disposições técnicas, que têm imposto o abate de milhares de embarcações. São os pescadores que suportam a perda de investimentos, postos de trabalho e assistem, sem nada poder fazer, à descaracterização das suas comunidades e à erosão de valores culturais edificados durante séculos. Por outro lado, os apoios estruturais públicos para modernizar a fileira têm sido escassos para compensar as perdas e para desenvolver projectos criativos do tecido empresarial, com incorporação de preocupações ambientais. Convém deixar dito que os oceanos e os recursos de pesca sofrem a pressão de uma série vasta de actividades exercidas no mar e em terra, indutoras de poluição captada pelo meio marinho, excedendo em muito o impacto nos stocks da actividade piscatória.

 

Ignoram alguns ambientalistas, que, aliás, são minoritários entre os que aceitam discutir com o sector objectivos comuns, que sem abundância de peixe no mar não há pescadores. Seria suicidário e inexplicável à luz da razão que a pesca agisse no interesse da sua própria morte. A consciência ética e de responsabilidade na pesca comunitária é um dado adquirido na formação individual e é transposta para métodos de pesca monitorizados com avançada instrumentação de comando, com a qual as capturas são dirigidas para peixes de que os navios têm quotas.

 

Fazendo referência à utilidade de um debate construtivo entre todos os actores, a renúncia da Greenpeace em integrar os Conselhos Consultivos Regionais de Pesca da UE é ilustrativa da sua opção unilateral nos conceitos e de afrontamento da comunidade piscatória que trabalha legalmente, no mar e em terra. Gostaríamos de ver esta ONG a denunciar potências mundiais que se especializaram no patrocínio da pesca ilegal, exercida sob bandeira de conveniência, para que possa escapar impune e exportar, por circuitos ínvios, para o mercado comunitário. Nessa trincheira contem connosco. Presido a um dos seis Conselhos Consultivos Regionais e corrigiria a afirmação anterior se, desde já, a Greenpeace aceitasse o convite público para expor os seus pontos de vista nesse fórum. Se o recusar, fica claro que o caminho que trilha é o do show-off e o da difusão do medo. Secretário-geral da Associação dos Armadores da Pesca Industrial (ADAPI)