Público - 10 Jul 08

 

Lengalengas
Constança Cunha e Sá

 

O poder político e o poder económico assentam numa rede de influência que fragiliza o poder do Estado e deturpa as regras do mercado

 

Há uns tempos, num encontro com o dr. Silva Lopes, este dizia-me que, do ponto de vista estritamente económico, não era fácil explicar o atraso do país, nomeadamente o facto de Portugal não ter conseguido aproveitar os fundos comunitários que lhe foram atribuídos, nestes últimos vinte anos. Alguns estudos recentes têm tentado compreender a chamada capacidade social de crescimento, tentando estabelecer uma relação entre o desenvolvimento de um país e as particularidades que, de certa forma, o definem. Embora as investigações em curso ainda estejam longe de permitir conclusões rigorosas, existem, de facto, países, como Portugal, que desafiam as estritas regras do crescimento económico.

 

Não é necessário ser um "epígono" de Oliveira Martins, como afirmava Rui Ramos, ontem, no PÚBLICO, para se perceber que o velho "pessimismo" português não é apenas um sinónimo de acomodação, mas sim uma forma de analisar a realidade, levando em linha de conta o permanente "atraso" em que Portugal se tem afundado. É natural que a propaganda oficial, com o seu optimismo descabelado, tenha como inimigo preferencial os ditos "velhos do Restelo", os tais que vivem à custa do pessimismo, agarrados a uma "lengalenga" que, como diz Rui Ramos, "faz da suposta crítica uma forma subtil de conforto". Muito subtil, de facto!

 

Esta estéril e acomodada "lengalenga" ganha forma, segundo Rui Ramos, num velho e conhecido "fado" que se traduz nestes termos: "Sempre vivemos acima das nossas posses, sempre dependemos do Estado, sempre fomos medíocres e por aí fora". Deixando de lado este último verso do fado, "sempre fomos medíocres", que me parece uma caricatura de algo que não existe, convém analisar os dois primeiros. Não vivemos sempre acima das nossas posses? Como é que se justifica, então, que vinte anos depois de aderirmos à União Europeia e apesar dos milhões e milhões de fundos que recebemos, a nossa dívida externa ascenda, neste momento, a cerca de cem por cento do PIB? E que o endividamento das famílias consiga ultrapassar esse valor?

 

Quanto à eterna dependência do Estado, é difícil saber como começar. Mas talvez seja suficiente referir a crescente promiscuidade entre o sector público e o sector privado que, mesmo à vista desarmada, floresce impunemente em Portugal. Reféns um do outro, o poder político e o poder económico assentam, cada vez mais, numa rede de influências e de favores que fragiliza a autoridade do Estado e deturpa inevitavelmente as mais elementares regras do mercado. Isto, para não falar de uma classe média que se desenvolveu através do funcionalismo público ou de uma classe empresarial que, em grande parte, vive à conta do Orçamento.

 

Infelizmente, os outros indicadores económicos não ajudam a compor o cenário. Basta levar em linha de conta os trinta e tal anos de democracia e lembrar as "bandeiras" da revolução. Apesar do progresso, do acesso à Educação e à Saúde, das infra-estruturas construídas e da melhoria das condições de vida da população, o país encontra-se à beira do precipício. Os sacrifícios, pedidos por todos os Governos, desaguam inevitavelmente em mais sacrifícios: continuamos a divergir da Europa, com um crescimento económico que, mesmo antes da crise internacional ser decretada pelo Governo, não chegava a 1,5 por cento do PIB. Com uma agricultura destruída, uma indústria incipiente e uma classe empresarial que não se distingue pela sua capacidade empreendedora, Portugal vive hoje a ressaca de todos esses amanhãs que cantavam ao som do consumo desbragado e dos vários "choques" que nos iriam abrir as portas do desenvolvimento.

 

O rosário ou a "lengalenga" estende-se a quase todos os domínios: à Saúde, à Justiça ou à Educação, essa grande aposta da democracia, que nos atira para a cauda da Europa, com uma taxa elevadíssima de abandono escolar (perto de vinte por cento) e com um défice de formação que se reflecte na competitividade das empresas e dos produtos nacionais.

 

Paralelamente, o país "descobriu" agora os valores assustadores da pobreza (perto de 20 por cento da população) que já existiam muito antes de serem "descobertos": infelizmente, a pobreza é um fenómeno persistente em Portugal, com tendência a agravar-se, nos próximos tempos, graças à subida do petróleo e ao aumento dos bens alimentares. Em matéria de desigualdade somos um país recordista, com um fosso cada vez mais profundo entre os mais ricos e os mais pobres. O envelhecimento da população, que caracteriza as sociedades ocidentais, atinge em Portugal níveis assustadores. De acordo com dados do Eurostat, em 2050, as pessoas com mais de 65 anos representarão mais de trinta por cento da população portuguesa. Não se vê como é que poderá haver capacidade orçamental que suporte este aumento assustador das necessidades. Mas, aparentemente, há quem veja. Embora o estudo apresentado por Rui Ramos e pelo Compromisso Portugal não seja propriamente pródigo em propostas ou soluções. E, na ausência destas, talvez seja preferível a "lengalenga" dos epígonos de Oliveira Martins à hipotética apresentação de alternativas que ninguém consegue detectar. Jornalista