Diário IOL - 09 Jul 08

 

A «raiz do mal» da Educação
Debate sobre o Estado da Nação, organizado pela SEDES, mostra um país «anémico», como o crescimento económico, atingido pelo flagelo do «linguajar pedagógico» que mina o ensino: «Escolas superiores de Educação deviam ser encerradas»

 

«Não é preciso menos Estado. É preciso um Estado forte». «Seguro Nacional de Saúde em vez de Serviço Nacional de Saúde». «Temos piores gestores do que operários». «Qualquer Governo preocupa-se mais com o noticiário das 8h do que com o país daqui a 20 anos». «As faculdades das ciências de educação deviam ser todas encerradas». «O que o 25 de Abril fez aos filhos dos pobres foi tirar-lhes a única hipótese de eles poderem ascender».

 

As frases, ditas esta quarta-feira à noite num debate promovido pela SEDES (Associação para o Desenvolvimento Económico e Social) sobre o Estado da Nação, pintam o país de uma cor escura, a um dia do tema chegar ao Parlamento e 24 horas depois de ter sido conhecido no jornal Público um documento da organização sobre a estratégia actual da governação de José Sócrates: já orientada para as eleições de 2009.

 

Com Maria Filomena Mónica, Paulo Teixeira Pinto e Vítor Bento e moderado por Luís Campos e Cunha, o debate foi fluindo à mercê das intervenções, sem o espartilho de um guião: da educação à economia, passando pela Justiça, o Estado foi escrutinado por quem vê o estado do país com preocupação.

 

A socióloga Maria Filomena Mónica apontou baterias à educação, considerando que «as faculdades de Ciências da Educação deviam ser encerradas imediatamente. Não servem para nada e fazem muito mal». Explicando que o «linguajar pedagógico» - "é preciso aprender a brincar" ou "os alunos não devem ser avaliados" - é um flagelo do nosso sistema de ensino actual, Maria Filomena Mónica afirmou que «a doutrina começou na esquerda, mas é agora transversal».

 

Sócrates governa a pensar nas eleições

 

A professora universitária vai mais longe: «O que o 25 de Abril fez aos filhos dos pobres foi tirar-lhes a única hipótese de eles poderem ascender socialmente». Questionada pelo PortugalDiário, à margem do debate, sobre esta declaração, Filomena Mónica fez questão de explicar que não fala de «quantidade» mas qualidade.

 

«Antes do 25 de Abril só 20 por cento dos alunos prosseguia os estudos para além da quarta classe; a «mortalidade» estudantil era muito elevada». «Essa injustiça foi reduzida» em 1974, mas «criou uma escolaridade que não prima pela exigência: os professores não incentivam, não estimulam. São ensinados a ter pena dos pobres e consideram que esses não podem prosseguir os estudos para serem médicos. Este tipo de ensino veio travar a ascensão social dos mais pobres».

 

Luís Campos e Cunha não tem dúvidas desta premissa e sublinha que «o nosso ensino estaria hoje muito melhor» se «as escolas de educação» não existissem. «Deveriam ser todas fechadas».

 

O tema dá pano para mangas e foi voltando ao debate. O economista Vítor Bento considera mesmo que a «educação é o grande fracasso deste regime porque ela própria tem promovido um rebaixamento de qualidade, com excessiva complacência com a mediocridade».

 

O economista observou ainda o peso do Estado, classificando-o de «omnipresente», e dedicou-se ao perigo do «excessivo défice externo», ao «crescimento anémico da economia» e à forma como Portugal «não sabe viver com o euro», alertando também para a ilusão de que as grandes obras públicas não custam dinheiro. «Quando ouço dizer que durante 5 anos aquela estada não vai ter custos, arrepio-me; porque isso não é verdade».

 

Já Paulo Teixeira Pinto salientou que não é preciso menos Estado: pelo contrário - «é preciso um Estado mais forte». O «Serviço Nacional de Saúde» deveria ser um «Seguro Nacional de Saúde».