Público - 09 Jul 08

 

Frutas e legumes deverão ser distribuídos de graça nas escolas da União Europeia
Clara Viana

 

O novo programa, de adesão voluntária, é também um instrumento contra esta nova forma de injustiça social: há mais obesos entre os que são mais pobres

 

Com mais de cinco milhões de crianças obesas, outros 22 milhões com excesso de peso e uma tendência que continua a ser de subida - o aumento estimado é de 400 mil por ano -, os países da União Europeia (UE) foram ontem convidados a fazer mais contra esta epidemia moderna, pondo os seus miúdos a comer fruta e legumes. Para o efeito, a Comissão Europeia vai disponibilizar 90 milhões de euros por ano para financiar um programa de distribuição gratuita nas escolas, destinado a crianças entre os seis e os dez anos, cujo número, na UE, ronda os 26 milhões.

 

Com o aumento da ingestão de frutas e legumes não só se ingerem mais fibras, vitaminas e minerais, como o seu consumo tende a funcionar como bola de neve: alimentos saudáveis puxam por outros do mesmo tipo.

 

O programa, que deverá entrar em vigor no ano lectivo 2009-2010, parte do pressuposto de que as aprendizagens iniciais tendem a manter-se para a vida. Promover junto dos jovens "hábitos alimentares saudáveis" será assim uma aposta no futuro, já que pode fazer deles adultos com menos doenças. Dados de 2007 indicam que a obesidade é responsável por seis por cento das despesas de saúde, em especial nas doenças cardiovasculares e na diabetes tipo 2.

 

Estudos realizados em vários países, incluindo Portugal, mostram que a obesidade passou a ter maior incidência nas classes mais pobres. Uma explicação, segundo João Breda, da Plataforma Nacional Contra a Obesidade: "Os alimentos calóricos são mais baratos". Segundo a Comissão Europeia, o programa ontem aprovado ajudará a alterar a situação: a distribuição gratuita de frutas e legumes nas escolas terá "um impacto social positivo, reduzindo desigualdades na saúde".

 

As frutas e os vegetais passaram já a ser obrigatórios nos menus escolares de muitos países da UE. A diferença é que, no futuro, se pretende que a sua distribuição seja gratuita, à semelhança do que em Portugal acontece com o leite e, noutros países, como a Irlanda ou a Espanha, passou também já a fazer-se com aqueles produtos. A adesão ao programa é voluntária. Aos países que aderirem, a Comissão garantirá um financiamento de 50 por cento (pode ir aos 75 por cento nos mais pobres) das iniciativas adoptadas.

 

Défice é maior nas crianças

 

"São muitas as crianças à nossa volta que não comem frutas e legumes em quantidades suficientes e que, frequentemente nem sabem apreciar o seu sabor. Basta passear em qualquer grande avenida da Europa para observar a dimensão dos problemas relacionados com o excesso de peso das crianças. Chegou o momento de tomarmos medidas", justificou o comissário responsável pela Agricultura, Mariaan Fischer Boel.

 

Com a proposta de distribuição gratuita nas escolas, ajuda-se a matar dois coelhos de uma só cajadada. Esta medida foi um compromisso assumido, em Junho de 2007, nas negociações para a reforma da organização do mercado das frutas e dos produtos hortícolas. Uma mudança que tem em vista sobretudo travar o declínio no consumo destes produtos.

 

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), deve-se consumir 400 gramas por dia de legumes e frutas. Na UE, o consumo per capita passou de cerca de 415 gramas, em 2000, para 380 em 2006. A manter-se a tendência, em 2010 estará nas 360 gramas.

 

O consumo de fruta e legumes entre as crianças é menor do que nos adultos, frisa-se mo projecto de resolução da Comissão. Inquéritos realizados no âmbito do projecto comunitário Pro-Children, que tem estudado a alimentação de crianças entre os dez e os 12 anos e das suas mães em nove países, entre os quais Portugal, mostra, que em média só 17,6 por cento das crianças com 11 anos comem a quantidade diária recomendada pela OMS.

 

Esta percentagem varia entre 7,8 e os 24,1 por cento. Com uma média de 143 gramas de consumo diário, a Espanha e a Islândia são os que apresentam piores resultados. Portugal e a Áustria, com 265 gramas/dia, são os que apresentam melhores resultados. Para além destes, realizaram-se inquéritos na Suécia, Bélgica, Holanda, Dinamarca e Noruega.

 

Outra conclusão do Pro-Children: no geral, as raparigas comem mais frutas e legumes do que os rapazes.